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#Romances#Literatura Brasileira

Rozaura, a enjeitada

Por Bernardo Guimarães (1883)

Temos fallado muito de Lucinda, e temos visto ella fazer um papel importante nesta historia sem lhe darmos o devido appreço. Era uma creoula velha, que havia amamentado sinhá Adelaide, e que a queria como filha. Tinha muito juizo, muito boa alma e muito boas intenções. Além disso a velha creoula era dotada de tal ronha, penetração e finura para negocios difficeis, como os de que vamos tratando, que faria inveja ao mais habil diplomata. Lucinda porém differia dos diplomatas em só empregar o seu talento a bem da paz e da prosperidade da familia, de que fazia parte, e não em multiplicar difficuldades alimentando o espirito de discordia.

Rozaura, que tinha accordado alegre e risonha com um passarinho, que saúda uma bella aurora, apenas tomou a benção a Adelaide, correu logo a tagarebar com Lucinda.

— Tia Lucinda, não sabe? . . tive esta noite um sonho, o mais bonito deste mundo, um sonho, que me fez chorar de alegria.

— Devàras, menina bem bom é isso.

Então que foi?...

— Adivinhe, tia Lucinda.

— Não sou adivinhadeira... mas de certo você sonhou com os anjinhos do céo, minha menina. Que mais podia você sonhar? . . .

É quasi isso mesmo, tia Lucinda. Eu sonhei que estava debruçada na janella olhando para o céo. Era de noite. Eu estava namorando as estrellas.,.

— Bonito namoro, interrompeu a creoula, de certo ellas tambem te estavão namorando.

Comecei a lembrar-me de minha mãe, que já morreu, — continou a menina sem dar muita attenção á lisonjeira replica da creoula, quando uma nuvem cheia de luz se apresentou no céo mesmo defronte de meus olhos. Esta nuvem veio descendo pouco a pouco até chegar bem perto de mim. Dentro della vinha uma mulher. A principio fiquei com medo ; mas essa mulher tinha um ar muito meigo, e disseme com brandura :

— Minha filha, não chores mais tua mãe; eu não morri, não ; fui ao céo, e agora volto para ficar comtigo.

Si ella não tivesse dito que era minha mãe, eu não a conhecia. Era uma mulher muito mais moça e muito mais bonita que a defuncta mamãe. Tinha os cabellos bem compridos e soltos, e a cór mais clara. Queria abraça-la, mas não podia ; ella chegou bem pertinho e deu—me um beijo na bocca. Acordei, mas até agora ainda me parece que estou sonhando aquelle sonho.

— Devéras . — disse Lucinda: e quem sabe, si esse sonho não era verdade !

— Como!... isso não é possível!...

— Deixa estar minha menina; esse teu bonito sonho é ao menos de muito bom agouro. — Deus o permitta, tia Lucinda.

Neste momento appareceu Adelaide, e depois de ter encarregado a Rozaura de cuidar do almoço, chamou Lucinda a seu quarto. O marido e o pae tinhão descido para a loja ; os meninos alegres e descuidosos brincavão pela casa.

Lucinda antes de tudo contou a sua sinhá o sonho de Rozaura.

— Que singular coincidencia ! — exclamou Adelaide commovida até o intimo da alma. Havia de ser por certo no momento, em que eu estava perto della allumiando-lhe o rosto, e que ella rio-se para mim sonhando, e eu beijei-lhe a bocca.

— Ah! minha sinhásinha!... que me está dizendo? issó é devéras?..

— É a pura verdade, Lucinda ; fui por tres

vezes com a luz na mão espiar o somno de. .. de minha filha, sim de minha filha ; hoje estou certissima de que Rozaura e minha filha.

— E sinhásinha não está vendo que ahi anda o dedo de Deus. Bem estava eu dizendo ainda agora á Rozaura que aquelle sonho tão bonito bem podia ser uma verdade ; e era mesmo, mais do que eu pensava. Essa mãe, que não morreo, e que ella estava vendo, quem era mais senão sua mãe verdadeira, sinão sinhásinha mesmo?

— isso, Lucinda; parece que Deus por fim se compadece de mim, e nos quer favorecer, e tenho esperança de que Rozaura ainda ha de ser muito feliz. Mas vamos ao que agora mais importa ; o que havemos de fazer a bem de Rozaura ? pensaste nisso, Lucinda?

Ah! sinhásinha, eu banzei a noite inteira parafuzando na imaginação um modo de arranjar isso, sem que sinhásinha fique mal, e só achei um furo.

Qual é elle? falla, Lucinda.

— Talvez sinhásinha não ache bom mas eu não vejo outro remedio.

— Não tenhas receio, falla, Lucinda ; para conseguir a liberdade e fazer a felicidade de mi' nha filha, estou disposta a tudo.

— Está direito, e mesmo eu penso que é de nossa obrigação fazer o que me veio cá na idéa. O que é então, Lucinda? estou impaciente por saber.

— Sinhásinha sabe que sinhá Rozaura não e sua só...

Pois de quem mais é'?

Ui sinhásinha pois não é tambem de nho Conrado?

— Ah ! por certo, — respondeo Adelaide corando e baixando os olhos.

— Nesse caso nós devemos participar tudo a elle. Si elle não puder nos guiar e ajudar neste negocio, ninguem mais. Elle é rico, e tem muito boas amizades na terra ; e demais sinhásinha bem póde imaginar, quanto elle é capaz de fazer sabendo que tem uma filha linda e mimosa, e que essa filha está no captiveiro.

— Tens muita razão, Lucinda; e eu que nem nisso havia pensado ! mas a fallar-te com franqueza repugna-me bastante dar esse passo. Não vá elle agastar-se commigo, ficar nos tendo odio e desprezo por termos engeitado a menina, e no excesso de sua indignação revelar tudo a meu pae e a meu marido, e expôr-me á vergonha e desprezo de todos aqui. Ah I Lucinda, tenho muite medo.

(continua...)

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