Por Martins Pena (1846)
PEDESTRE – Vivos! Todos vivos! Ressuscitaram! Oh! (Dirigindo-se para a mulher:) Mulher!
ANACLETA, amparando-se com Roberto – Meu pai, salvai-me!
ROBERTO, para o Pedestre – Para longe!
PEDESTRE – Mulher, eu te matei... Eu o matei também... (Apontando para Paulino.) E tu e ele ficaram vivos nesta casa, juntos, fechados... e fechados por mim, por mim próprio! Oh, de que me serviu trancar portas e fazer duas mortes? (Dirigindose para – Balbina:) E tu te deixaste furtar por um negro, que eu mesmo conduzi para fora de casa... Oh, de que me serviram as fechaduras, os cuidados, os ciúmes, a palmatória? Oh, estou desenganado! (Dirigindo-se para Roberto:) Senhor, levai vossa filha, que já me não pertence... Eu a matei, estou viúvo... Dai-lhe todos os vossos navios e riquezas; ide morar com ela em um palácio, que eu não... Em um palácio! Oh, em um palácio, que tem tantas portas e janelas! Ah, esta casa só tinha uma porta, e assim mesmo... Não, não, levai-a... Não sei, não posso vigiar mulheres, estou desenganado, vou ser frade!
ANACLETA – André!
PEDESTRE – Arreda!
ROBERTO – Filha! (Retendo-a.)
PEDESTRE, para Balbina – E tu, que tão indignamente me enganaste, casa-te com este negro, que estou vingado!
ALEXANDRE – Aceito a vossa palavra. (Passa a mão no rosto e,limpando a face, mostra ao Pedestre.)
PEDESTRE – Oh, faltava-me esta! Minha resolução está tomada... (Para o Cabo:) Senhor, prenda-me e leve-me para o convento; eu quero ser preso. (Dizendo estas palavras, agarra na gola da farda de um dos soldados e na do Cabo.) Estou preso!
PAULINO, do buraco – Ah, ah, ah!
CABO – Largue-me, largue-me!
PEDESTRE – Não me deixem fugir...
ANACLETA – André!
BALBINA, ao mesmo tempo – Meu pai!
PEDESTRE, para as duas – Deixem-me, estou preso pela polícia para ser frade!
(Para o Cabo:) Não me deixem fugir... Adeus, ó mundo, adeus, mulheres! Vamos!
(Vai-se pelo fundo, levando o Cabo e soldado consigo.)
CABO, levado à força – Espere, espere!
ANACLETA – Meu pai!
ROBERTO, ao mesmo tempo – Filha!
BALBINA, ao mesmo tempo – Alexandre!
ALEXANDRE, ao mesmo tempo – Serás minha!
PEDESTRE, saindo pelo fundo – Vou ser frade!
PAULINO, do buraco – E eu vou dormir, que já deu uma hora... (Alexandre ajoelha-se aos pés de Balbina; Roberto abraça Anacleta. Cai o pano, ouvindo-se sempre a voz do Pedestre, dentro.)
PEDESTRE, dentro – Quero ser frade, quero ser frade!
FIM.
PENA, Martins. Os ciúmes de um pedestre ou o terrível capitão do mato. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=2155 . Acesso em: 29 jan. 2026.