Por José de Alencar (1872)
Vinha chegando-se com a proverbial pachorra paulistana um camarada, que mastigava o último bocado do almoço, e preparava o cigarro de palha. Aceso o pito e tomada a primeira fumaça, passou revista primeiro nos arreios do baio e da rosilha, depois nos cascos; e não achando coisa de maior, foi contudo, para mostrar a sua valia, aqui apertando um loro, ali afrouxando uma cilha e repuxando uma correia da cabeça.
- Esta corja de pajens, dizia a rir para o mulato em forma de cumprimento, só serve de emporcalhar a casa. Ficam velhos e não aprendem.
- Corja é súcia, sô Mandu. Olhe lá! rebateu o pajem.
Nisto apontou a mucama à janela.
- Falta muito ainda, Rosa? perguntou o mulato.
- Já está acabando. Não tem tempo de ir mais à roça, ver Florência, não, rapaz.
- Ai, que dor de canela!
- Ixe! Quem conta com pajem!
- Assim, menina! exclamou o camarada. Tem aqui uma barra para seu pimpão.
- Sai daí! chasqueou o mulato. Jabuticabinha de sinhá é lá para o beiço de caipira? Vá comer sua broa de milho, homem, e deixe de partes.
A mucama soltou uma risada e desapareceu de repente a um puxão que de dentro lhe deu o pajem Faustino.
- Assim é que serve a mesa?
- Salta, moleque! Menos confiança comigo.
- Hô xente! Moleque como nós. Tenho muita xibança nisso. Não é como esse mestiço do inferno, cor de burro; mas você não tem vergonha mesmo de vir engraçar com ele na janela.
- Sinhá está ouvindo! disse a rapariga em tom de ameaça.
- Melhor pra mim! Eu cá não me embaraço.
Este curto diálogo travou-se na saleta da entrada, onde o Faustino veio pilhar a mucama, que escapulira do serviço da mesa para se faceirar com o mulato. Apanhada em flagrante, a Rosa, muito senhora de si tornou à sala de jantar, onde ninguém dera pela sua falta.
Ali, estava posta para o almoço a larga mesa de jacarandá, coberta com alva toalha de linho adamascado; e rodeada naquele momento, como de ordinário, por cinco pessoas.
A cabeceira, contra os costumes da terra, ocupava-a a dona da casa, senhora de 38 anos, e não formosa; porém tão prendada de inata elegância, que seus traços e toda sua pessoa tomava um particular realce. Se não tinha bonitos olhos, ninguém sabia olhar como ela; a boca sem primores de forma, enflorava-se com o sorriso inteligente e a palavra brilhante.
Filha de um capitalista de Campinas, D. Ermelinda recebera em um colégio inglês da corte educação esmerada, que desenvolveu a natural distinção de seu espírito. Recolhida à sua província, teria sem dúvida perdido ao atrito dos costumes do interior aquele tom fidalgo, se fosse ele um artifício do hábito, em vez de um dom, que era da natureza, o qual o exemplo não fizera senão polir.
À expansão dessa natureza delicada, ao perfume de bom gosto que derramava em trono de si, deve-se atribuir a ausência de cor local que se notava senão em toda casa, ao menos na família. Aquela esfera que recebia a influência imediata da dona da casa, não era paulista, mas fluminense; e não fluminense pura, senão retocada já pelo apuro escocês e pela graça francesa.
Aos verdadeiros paulistas da têmpera antiga, de antes quebrar que torcer, aos grandes turrões, nutridos de lombinho de porco e couve crua, não deixava de escandalizar esse enxerto carioca no meio das suas matas, e por isso, já desconfiados de natureza, mostravam-se espantadiços, quando entravam na casa das Palmas.
À direita de D. Ermelinda estava o dono da casa, Luís Galvão, cujo aspecto franco e jovial granjeava a simpatia ao primeiro acesso. Era um bonito homem, de fisionomia inteligente e regular estatura, que revelava em sua compostura digna a consciência do próprio mérito.
Do comedimento do modo prazenteiro, bem como do alinho do traje, transpirava o influxo da suprema distinção do espírito de sua mulher. Naturezas há que têm a força de imprimirem o seu cunho naqueles que o cercam; outras se apoderam da índole alheia insinuando-se nela pelo afeto, impregnando-a de sua essência.
(continua...)
ALENCAR, José de. Til. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1850
. Acesso em: 28 jan. 2026.