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#Contos#Literatura Brasileira

Linha reta e linha curva

Por Machado de Assis (1871)

- Bravo, D. Quixote! 

- Ora, eu acreditava-me ofendido na honra. 

- Por mim? 

- Mas emendei a mão; reparei que era antes eu quem ofendia pretendendo lutar com um mestre, eu simples aprendiz?... 

- Mestre de quê? 

- Dos amores! Oh! eu sei que é mestre...

- Deixe-se disso... eu não sou nada... o Sr. Diogo, sim; o senhor vale um urso, vale mesmo dous. Como havia de eu... Ora!... Aposto que teve ciúmes? 

- Exatamente. 

- Mas era preciso não me conhecer; não sabe das minhas idéias? - Homem, às vezes é pior. 

- Pior, como? 

- As mulheres não deixam uma afronta sem castigo... As suas idéias são afrontosas... Qual será o castigo? Paro aqui... paro aqui... 

- Onde vai? 

- Vou sair. Adeus. Não se lembre mais da minha desastrada idéia do duelo... 

- Que está acabado... Ah! o senhor esca 

- De quê? 

- De morrer. Eu enfiava-lhe a espada por esse abdômen... com um gosto... com um gosto só comparável ao que tenho de abraçá-lo vivo e são! 

Diogo riu-se com um so amarelo. 

- Obrigado, obrigado. Até logo! 

- Venha cá, onde vai? Não se despede de D. Adelaide? 

- Eu já volto, disse Diogo travando do chapéu e saindo precipitadamente. Tito ainda o acompanhou com os olhos. 

"Este sujeito", disse o moço consigo quando se viu só, "não tem nada de original. Aquela opinião a respeito das mulheres não é dele... Melhor... já se conspira; é o que me convém. Hás de vir! hás de vir! 

Um criado alemão veio anunciar a Tito que o almoço estava preparado. Tito ia entrando quando assomou à porta a figura de Azevedo. 

- Ora, graças a Deus! O meu amigo não se levanta com o sol. Estás com olhos de quem acaba de dormir. 

- É verdade, e vou almoçar.

Dirigiram-se os dous para dentro, onde a mesa estava posta à espera de Tito. 

- Almoças outra vez? perguntou Tito. 

- Não. 

- Pois então vais ver como se come. 

Tito sentou-se à mesa; Azevedo estirou-se num sofá. 

- Onde foste? perguntou Tito. 

- Fui passear... Compreendi que é preciso ver e admirar o que é indiferente, para apreciar e ver aquilo que faz a felicidade íntima do coração. 

- Ah! sim? Bem vês que até a felicidade por igual fatiga! Afinal sempre a razão do meu lado. 

- Talvez. Apesar de tudo, quer-me parecer que já intentas entrar na família dos casados. 

- Eu? 

- Tu, sim. 

- Por quê? 

- Mas, dize, é ou não verdade? 

- Qual, verdade! 

- O que sei, é que uma destas tardes em que adormeceste lendo, não sei que livro, ouvi-te pronunciar em sonhos, com a maior ternura, o nome de Emília. 

- Deveras? perguntou Tito mastigando. 

- É exato. Concluí que se sonhavas com ela é que a tinhas no pensamento, e se a tinhas no pensamento é que a amavas. 

- Concluíste mal. 

- Mal? 

- Concluíste como um marido de cinco meses. Que prova um sonho? Não prova nada! Pareces velha supersticiosa...

- Mas enfim, alguma cousa há por força... Serás capaz de me dizeres o que é? 

- Homem, podia dizer-te alguma cousa se não fosses casado... - Que tem que eu seja casado? 

- Tem tudo. Seria indiscreto sem querer e até sem saber. À noite, entre um beijo e um bocejo, o marido e a mulher abrem um para o outro a bolsa das confidências. Sem pensares, podes deitar tudo a perder. 

- Não digas isso. Vamos lá. Há novidade? 

- Não há nada. 

- Confirmas as minhas suspeitas. Gostas da Emília. 

- Ódio não lhe tenho, é verdade. 

- Gostas. E ela merece. É uma boa senhora, de não vulgar beleza, possuindo as melhores qualidades. Talvez preferisses que não fosse viúva?... 

- Sim; é natural que se embale dez vezes por dia na lembrança dos dous maridos que já exportou para o outro mundo... à espera de exportar o terceiro... 

- Não é dessas... 

- Afianças? 

- Quase que posso afiançar. 

- Ah! meu amigo, disse Tito levantando-se da mesa e indo acender um charuto, toma o conselho de um tolo: nunca afiances nada, principalmente em tais assuntos. Entre a prudência discreta, e a cega confiança não é lícito duvidar, a escolha está decidida nos próprios termos da primeira. O que podes tu afiançar a respeito de Emília? Não a conheces melhor do que eu. Há quinze dias que nos conhecemos, e eu já lhe leio no interior; estou longe de atribuir-lhe maus sentimentos, mas tenho a certeza de que não possui as raríssimas qualidades que são necessárias à exceção. Que sabes tu? 

(continua...)

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