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#Romances#Literatura Brasileira

Sonhos d’Ouro

Por José de Alencar (1872)

Ricardo vinha entregue ao enlevo da contemplação da tarde, quando ao dobrar uma volta do caminho achou-se diante de um rancho de moças, que andavam passeando. Entre todas distinguia-se, pelo talhe esbelto e gracioso, uma, vestida de seda escocesa, desde a botina até as fitas do cabelo. 

Diante dela corria, saltando e latindo, uma cachorrinha felpuda, muito alva, com brincos de ouro e uma coleira de veludo; mas apenas percebeu o cavaleiro, atirou-se ao “Galgo” para mordê-lo no jarrete. 

Ricardo, tendo reconhecido a Guida, supôs que a cachorrinha era a mesma da história contada por Fábio, a Sofia. 

Mais aborrecido ficou ainda com o impertinente animal, que investia furioso contra as pernas do cavalo. 

A situação nada tinha de agradável; o caminho era estreito; de um lado o despenhadeiro, do outro a montanha cortada a pique. O “Galgo”, fogoso e irritado com a insultante ameaça do cão, encrespava-se, lançando fogo pelas narinas. Ricardo, excelente cavaleiro, conseguiu dominar o primeiro ímpeto, e tocando no chapéu, disse para as moças que se tinham posto ao abrigo subindo a ribanceira da montanha: 

- Acho bom chamar o cãozinho! 

A Guida deu um estalo com os dedos: 

- Cá, Sofia. 

- Deixe! disseram as outras rindo. 

Pensavam que Ricardo tinha medo do cavalo, e queriam divertir-se com a queda. Não se lembravam, que naquele lugar, à borda de um despenhadeiro, podia ser fatal. 

Sofia ouvira a voz da senhora; mas, com o seu privilégio de cão mimoso desobedeceu; e investiu contra o “Galgo” com maior sanha. Ela estava acostumada àquele brinquedo; já tinha mordido o jarrete de muitos cavalos, atirando ao chão os cavaleiros, para divertimento da senhora e suas amigas. 

Ricardo vendo a inutilidade de sua recomendação, deu largas à cólera do “Galgo”. O brioso cavalo juntou, e atirandose para a frente de um salto, arremessou o coice. A cachorrinha foi cair no fundo do precipício, sem tempo sequer de soltar um gemido de dor. 

- Sem dúvida morreu! disse uma das moças. Passando pelas senhoras, Ricardo cortejou: 

- Queiram desculpar, minhas senhoras; este cavalo é um provinciano; ainda não tem maneiras cortesãs. À noite, antes de dormir, Fábio dava risadas gostosas ouvindo o episódio do passeio. 

 

 

Decorreu mais de um mês. 

Durante esse tempo Ricardo passou com seu amigo três domingos na Tijuca. De cada vez o acaso o fizera encontrar a Guida quando mal pensava. 

A primeira vez foi na manhã do domingo que seguiu-se às cenas referidas. 

Ricardo saíra no “Galgo” a passeio. Tomando para o lado da cascatinha, que as chuvas dos últimos dias tinham enriquecido, lembrou-se o moço de subir até a Floresta, um dos mais lindos sítios da Tijuca. O nome pomposo do lugar não é por ora mais do que uma promessa; quando porém crescerem as mudas de árvores de lei, que a paciência e 

inteligente esforço do engenheiro Archer têm alinhado aos milhares pelas encostas, uma selva frondosa cobrirá o largo dorso da montanha, onde nascem os ricos mananciais. 

Viva a imagem da loucura humana! Refazer à custa de anos, trabalho e dispêndio de grande cabedal, o que destruiu em alguns dias pela cobiça de um lucro insignificante! Aquelas encostas secas e nuas, que uma plantação laboriosa vai cobrindo de plantas emprestadas, se vestiam outrora de matas virgens, de árvores seculares, cujos esqueletos carcomidos às vezes se encontram ainda escondidos nalguma profunda grota. Veio o homem civilizado e abateu os troncos gigantes para fazer carvão; agora, que precisa da sombra para obter água, arroja-se a inventar uma selva, como se fosse um palácio. Ontem carvoeiro, hoje aguadeiro; mas sempre a mesma formiga, abandonando a casa velha para empregar sua atividade em construir a nova. 

Ricardo pensava pouco mais ou menos nesse sentido, enquanto ganhava a ponte da Cascatinha, com intenção de subir até a Floresta. Mas essas preocupações se desvaneceram completamente diante do quadro arrebatador que se oferecera a seus olhos. 

Brancos lençóis de espuma se desdobravam pelas escarpas do rochedo, como as pregas de alvo manto flutuando sobre as espáduas de Agar, a africana. A vegetação se debruçando de um e outro lado, derrama sobre a cachoeira uma sombra doce, que torna mais negra a pedra e mais cândida a espuma. 

Há cascatas muito mais ricas e abundantes do que essa, não só na grande massa das águas, como na vastidão e aspereza dos penhascos. Têm, sem dúvida aspecto mais soberbo e majestoso; inspiram n’alma pensamentos mais graves e sublimes. 

(continua...)

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