Por José de Alencar (1875)
Do lado oposto, oculto por uma grande touça de carnaúbas, o massapé fazia um ressalto, formando uma coroa no alagadiço da várzea. Alí crescia entrelaçado com os estipes das palmeiras, um arvoredo viçoso a-pesar-da estação, e que abrigava sob a rama verdejante uma choça de pegureiro.
O colmo da cabana era de palha da carnaúba, como do tronco eram os esteios e cumieira, e dos talos a porta, aberta nesse momento. O interior constava de um só repartimento com uma emposta de esteira da mesma palha, levantada a meio da choupana.
A um lado via-se um balaio com o eitio de mala e tampa também de palha de carnaúba trançada; fronteiro um catre cujo leito era formado das aspas da palmeira que fornecera todo o material da habitação.
Quando o sertanejo chegou à porta da cabana, estava deitado no catre um homem que pela sua imobilidade parecia dormir. O parecer era de um velho no período da decrepitude.
Os cabelos compridos até se mesclarem com a barba, formavam como um capelo d’alva que lhe cobria todo o busto. Sob êste rebuço das cãs, apenas se lhe distinguiam das feições as pálpebras, cerradas naquele momento.
O trajo do ancião compunha-se unicamente de uma túnica estreita de algodão, tinta de preto e cuja teia mal urdida era de grosseiro fio. Os pés tinha-os descalços e cobertos de poeira e cinza.
Arnaldo aproximou-se do catre e apertou a mão do velho:
— Benvindo, Arnaldo. Já sabia que estavas de volta, disse o velho sem mover-se.
— Como o soubeste, Jó, se acaba de chegar?
— Não careço de abrir os olhos para ver-te, filho. Desde esta manhã que eu te sinto chegar; ouço os teus passos.
— E quando eu chego, não te ergues daí para dar-me um abraço depois de tão longa ausência! disse Arnaldo com doce exprobração.
— Também já te abracei, filho, quando entraste, e ainda te tenho dentro d’alma.
O mancebo, habituado a essa linguagem mística, não mostrava a menor estranheza; ao contrário, reclinou para o catre e estreitou o ancião ao peito.
O velho ergueu-se para corresponder à carícia de seu jovem amigo.
— Antes de tudo, Jó, diz-me, se alguma coisa te faltou? perguntou Arnaldo com solicitude.
— Que pode faltar à fera no meio das brenhas?
— O sossêgo, Jó; e não ando errado, pois vim encontrar uma cilada, que nos armaram. Mas felizmente cheguei a tempo.
— Deixa que se cumpra a vontade de Deus, filho. Êle proíbe que arrisques a tua mocidade por causa de uma poeira que se está esboroando a cada momento.
— É preciso que abandones por algum tempo a cabana, Jó! tornou o sertanejo com o tom
resoluto.
— Porventura deixo eu nesta cabana a minha sina, para que, abandonando-a, me esconda à cólera celeste, que pesa sôbre mim?
— Não é a cólera celeste que te ameaça, é a vingança de um inimigo traiçoeiro que deitou fogo à mata da fazenda, e o fez de maneira que as suspeitas recaem sôbre ti. O velho sacudiu os ombros.
— Eu conhecí os sinais de um rasto apagado no lugar onde começou o incêncio; e já sei de quem é êsse rasto. Mas na fazenda o ignoram; e não faltará quem lance a culpa ao velho Jó.
— Outras maiores pesam sôbre êste mísero pecador, filho; e ainda não acabaram de afundar pela terra a dentro.
— O capitão-mór é severo, e duro de abrandar.
— Mais dura é a miséria, filho, que já calejou-me a alma. Não se teme da iniquidade dos homens quem se entregou nas mãos de Deus.
— Faz o que te peço, Jó; afasta-te dêstes sítios ao menos por alguns dias, até esquecer o perigo por que passou a casa com seus moradores.
— Eu sou o peregrino da morte, Arnaldo; quantas vezes já to hei dito! Ando em romaria após ela, que fugiu-me sempre até êste momento. E quando enfim me sai ao encontro, posso eu voltar-lhe o rosto e arredar-me para longe? Não o farei de-certo; nem tu o exigirás.
— Não o exijo por ti, senão por mim.
— Também por tua causa, não devo demorar-me neste mundo, onde estou roubando-te uma parte dos pensamentos cuidados dessa mocidade, que merece melhor destino. Não vês como tombam na mata os troncos velhos e carcomidos para deixar que remontem-se os jovens e robustos madeiros?
— Não me entendeste, Jó; quando te rogo por amor de mim, é porque se ficares aquí, e da fazenda te vierem buscar, achar-me-ão primeiro.
— Não farás isto.
— Enquanto eu vivo, ninguém te ofenderá, juro-o pelas cinzas de meu pai. Ninguém, ainda que seja o capitão-mór em pessoa!
O mancebo pronunciou estas palavras com uma articulação enérgica; mas logo após súbita emoção lhe ofuscou a voz.
— E tu sabes que o capitão-mór é a sombra de meu pai neste mundo. O ancião ergueu-se pronto:
— Caminha, Arnaldo; eu te seguirei aonde fores.
— Não sairás assim por teu pé, que deixarias o rumo para te buscarem.
(continua...)
ALENCAR, José de. O Sertanejo. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1848 . Acesso em: 27 jan. 2026.