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#Romances#Literatura Brasileira

O Guarani

Por José de Alencar (1857)

— Vamos dormir, disse ela à rola com a garridice com que as mães falam aos filhinhos recém-nascidos: a rolinha está com sono, não é? 

E deixando sua prima um momento só no jardim, foi agasalhar os seus dois companheiros de solidão, com tanto carinho e solicitude que bem revelava a riqueza de sentimento que havia no fundo desse coração, envolta pela graça infantil de seu espírito. 

Nesta ocasião ouviu-se um tropel de animais perto da casa; Isabel lançou os olhos sobre as margens do rio, e viu uma banda de cavaleiros que entravam a cerca. 

Soltou um grito de surpresa, de alegria e susto ao mesmo tempo. 

— Que é? perguntou Cecília correndo para sua prima. 

— São eles que chegam. 

— Eles quem? 

— O Sr. Álvaro e os outros. 

— Ah!... exclamou a moça corando. 

— Não achas que voltaram muito depressa? perguntou Isabel sem reparar na perturbação de sua prima. 

— Muito; quem sabe se houve alguma coisa! 

— Dezenove dias apenas... disse Isabel maquinalmente.

— Contaste os dias? 

— É fácil! respondeu a moça corando por sua vez; depois de amanhã faz três semanas.

— Vamos a ver que lindas coisas eles nos trazem! 

— Nos trazem? repetiu Isabel carregando sobre a palavra com um tom de melancolia.

— Nos trazem, sim; porque eu encomendei um fio de pérolas para ti. Devem ir-te bem as pérolas, com tuas faces cor de jambo! Sabes que eu tenho inveja do teu moreninho, prima?

— E eu daria a minha vida para ter a tua alvura, Cecília

— Ai! o sol está quase a se pôr! Vamos. 

E as duas moças tomaram pelo interior da casa, dirigindo-se ao lado da entrada.  


VI 

A VOLTA 

 

Ao mesmo tempo que esta cena se passava no jardim, dois homens passeavam do outro lado da esplanada, na sombra que projetava o edifício. 

Um deles, de alto porte, conhecia-se imediatamente que era um fidalgo pela altivez do gesto e pelo trajo de cavalheiro. 

Vestia um gibão de velado preto com alamares de seda cor de café no peito e nas aberturas das mangas; os calções do mesmo estofo, e também pretos, caíam sobre as botas longas de couro branco com esporas de Ouro 

Uma simples preguilha de linho alvíssimo cercava o talho do seu gibão, e deixava a descoberto o pescoço, que sustentava com graça uma bela e nobre cabeça de velho. 

De seu chapéu de feltro pardo sem pluma escapavam-se os anéis de cabelos brancos, que calam sobre os ombros; através da longa barba alva como a espuma da cascata, brilhavam suas faces rosadas, sua boca ainda expressiva, e seus olhos pequenos mas vivos. 

Este fidalgo era D. Antônio de Mariz que, apesar de seus sessenta anos, mostrava um vigor devido talvez à vida ativa; trazia ainda o porte direito, e tinha o passo firme e seguro como se estivesse na força da idade. 

O outro velho, que caminhava a seu lado com o chapéu na mão, era Aires Gomes, seu escudeiro e antigo companheiro de sua vida aventureira; o fidalgo depositava a maior confiança na sua discrição e zelo. 

A fisionomia deste homem tinha, quer pela sagacidade inquieta que era a sua expressão ordinária, quer pelos seus traços alongados, uma certa semelhança com o focinho da raposa, semelhança que era ainda mais aumentada pelo seu trajo bizarro. Trazia sobre o gibão de belbutina cor de pinhão uma espécie de véstia do pêlo daquele animal, do qual eram também as botas compridas, que lhe serviam quase de calções. 

— Em que o negues, Aires Gomes, dizia o fidalgo ao seu escudeiro, medindo a passos lentos o terreno; estou certo que és do meu parecer. 

— Não digo de todo que não, sr. cavalheiro; confesso que D. Diogo cometeu uma imprudência matando essa índia. 

— Dize uma barbaria, uma loucura!... Não penses que com ser meu filho, o desculpo!

— Julgais com demasiada severidade. 

— E o devo, porque um fidalgo que mata uma criatura fraca e inofensiva, comete uma ação baixa e indigna. Durante trinta anos que me acompanhas, sabes como trato os meus inimigos; pois bem, a minha espada, que tem abatido tantos homens na guerra, cair-me-ia da mão se, num momento de desvario, a erguesse contra uma mulher. 

— Mas é preciso ver que casta de mulher é esta, uma selvagem... 

— Sei o que queres dizer; não partilho essas idéias que vogam entre os meus companheiros; para mim, os índios quando nos atacam, são inimigos que devemos combater; quando nos respeitam são vassalos de uma terra que conquistamos, mas são homens! 

— Vosso filho não pensa assim, e bem sabeis que os princípios que lhe deu a Sra. D. Lauriana... 

— Minha mulher!... replicou o fidalgo com algum azedume. Mas não é disto que discorríamos. 

— Sim; faláveis dos receios que vos inspirava a imprudência de D. Diogo.

(continua...)

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