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#Romances#Literatura Brasileira

Garatuja

Por José de Alencar (1873)

Arranjou como pôde um pedaço de pergaminho de Flandres, tamanho de palmo; e depois de bem respançado, meteu-o na grade. Então, munindo-se das cores precisas, trancou-se em casa e eilo a esboçar a miniatura, em que punha toda sua arte. 

Foi apalpando o branco com a laca e a sombra para fazer os encarnados, até que se destacou em colorido a figura esboçada de um cupido brincão e gentil, armado em guerra, de arco e aliava. O pintor o figurava em ação de brandir uma seta, cuja ponta embebia na luz de uma estrela radiante em céu azul, para cravar um coração caído por terra e já crivado por um molho delas. 

Terminado o colorido e bem apalpadas as sombras e realces, quando ia passar à iluminação, esqueceu-se que faltava-lhe pão d’ouro para o farpão das setas, e correu à tenda do Belmiro a pedirlhe um tantinho dele; de caminho foi arranjando o conto que lhe havia de fazer, para ocultar o verdadeiro fim. 

De volta, achou-se em branco o nosso Ivo. Tinha-lhe desaparecido o painel, sem deixar indícios de quem o levara. A câmara onde trabalhava tinha uma só porta que ele tivera o cuidado de fechar à chave, e uma janela que dava para a cerca. Era por aí sem dúvida que entrara o larápio. 

Correu ao peitoril, e só descobriu um gozo da cozinha, acocorado no quintal em frente dele, e a olhá-lo com focinho chocarreiro, como se estivesse aplaudindo o logro, que haviam pregado no nosso namorado, e mofando de sua figura estatelada. 

Dando com os olhos no cão teve o rapaz um pressentimento cruel. O pergaminho, apesar do respanço e da imprimadura, no fim de contas não passava de couro de carneiro, e todo o cachorro tem sua queda para esse despojo animal, até mesmo quando o encontra no cisco em forma de sapato velho. 

Convencido de ser o gozo quem surripiara o malfadado cupido, e talvez àquela hora o tinha no bucho, o Ivo, com o sangue a ferver-lhe, galgou de um pulo o batente da janela, e foi-se como um raio ao cão. Mas esse, que lhe pressentira o ímpeto escafedeu-se. Perseguiu-o o pintor, bem resolvido a agarrá-lo e abrir-lhe o ventre para extrair a miniatura, de que ainda esperava aproveitar o pergaminho. Batendo o mato e correndo o rossio da cidade no encalço do fugitivo, consolava-o a idéia, de que o verdete e o zarcão dariam cabo do bicho. 

Lá por volta de Ave-Maria, tornou ele a casa prostrado de fadiga, esgalgado de fome, mas sobretudo minado pelo desespero, que é a pior das rafas, pois esmicha a alma. 

Afagar por muitos dias um pensamento; sonhar a realidade dessa inspiração; brotá-la da imaginação, como a árvore brota a flor; vê-la espontar, a princípio tênue gomo, depois capulho, mais tarde já botão, e finalmente corola esplêndida, recendendo fragrância, e vertendo as mais lindas cores! 

Chegar até aí, e quando não faltava senão o último toque, suprema carícia que o poeta e o artista não se cansam de fazer ao seu lavor, antes de o despedir de si, ver perdida a obra querida, o filho de sua alma, e não só perdida para ele, como para o mundo; condenada antes de vir à luz! 

Essa dor, só a imaginam os que marcou Deus com o selo da fatalidade para fazerem de sua alma a hóstia do progresso, e darem sua vida à comungação dos povos: são os mártires da ciência e da arte. Ivo estava predestinado a ser um desses. 

Para o mancebo, o painel era a sua primeira prenda de amor; e todavia por maior que fosse o desgosto do namorado, sobrepujava a desconsolação do pintor. 

Ao entrar em sua casa da Rua do Cotovelo, esbarou-se o Ivo com a Sr.ª Rosalina que o 

esperava, inquieta por causa da sua ausência. Ao vê-lo porém, dissipou-se o desassossego em que estava; e ficou apenas uma certa sofreguidão alegre, porque lhe esboçava nos lábios um sorriso, a muito custo disfarçado. 

Ivo não deu por isso, aborrecido como vinha de sua vida, e ia passando sem falar com a madrinha. Foi esta que o reteve: 

— Ivo!... 

Como não tivesse resposta, insistiu: 

— Ivo!... Responde, gente! 

— Estou ouvindo! respondeu afinal o rapaz com um modo emburrado.

— Esta noite, quero levar você a uma parte. 

— Eu não vou! 

— Como há de ser agora? Se prometi à Sr.ª Romana. 

— Qual Romana? acudiu lesto o rapaz. A sogra do tabelião? 

— Ela mesma, menino, sem tirar, nem pôr. 

Ivo hesitou um momento, buscando um disfarce para voltar da primeira resolução. Afinal saiu-se com esta: 

— Como é aqui perto, eu posso ir até a porta. — Pois sim. 

(continua...)

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