Por José de Alencar (1860)
Araújo – Então é um fátuo?
Meneses – Pois não! É um homem feliz; vai a um teatro e a um baile; acha bonita uma mulher, solteira, viúva ou casada; persuade-se que ela o ama; e no dia seguinte com a maior boa fé revela esse segredo a alguns amigos bastante discretos para só contarem aos seus conhecidos.
Araújo – E é nisso que se ocupam?
Meneses – Achas que é pouco?
Vieirinha – Uma saúde! Mas há de ser de virar.
Helena – A quem?
Vieirinha – À mulher que compreende o amor. Pois eu bebo à mulher que compreende o prazer.
Pinheiro – Bravo! Muito bem!
Helena – Não bebe, senhor Ribeiro?
Ribeiro – Eu bebo à minha saúde.
Helena – E eu à segunda.
Vieirinha – E eu a ambas.
Pinheiro – José, pede permissão a estes senhores para oferecer-lhes um copo de champagne. Espero que me façam o obséquio de acompanhar a nossa saúde.
Vamos, Meneses!
Meneses – Qual é a saúde?
Carolina – À mulher que ama o prazer.
Meneses – Vá lá!
Pinheiro – Os senhores não bebem?
Araújo – Eu agradeço.
Pinheiro – E o senhor Viana?
Luís – Eu proponho outra saúde: ao prazer e àqueles que para gozá-lo sacrificam tudo!
Pinheiro – É a melhor!
Luís – E a mais verdadeira. Se os senhores me permitem, eu lhes contarei uma pequena história que os há de divertir.
Vieirinha – Com muito gosto.
Meneses – Venha a história.
Luís – O senhor pode aproveitá-la para um dos seus folhetins, quando lhe falte matéria.
Meneses – Fica ao meu cuidado.
Vieirinha – Mas não a apliques a ti, conforme o teu costume.
Meneses – Se for uma história de amor, está visto que hás de ser tu o meu herói.
Luís – É uma história de amor. Passou-se há dois anos.
Pinheiro – Aqui na corte?
Luís – Na Cidade Nova. Vivia então no seio de uma família uma moça pobre, mas honrada. Tinha dezoito anos; era linda... como... uma senhora que está a seu lado, Sr. Ribeiro.
Ribeiro – Em que rua morava?
Luís – Não me lembro. Seu pai e sua mãe a adoravam; tinha um primo, pobre artista, que a amava loucamente.
Carolina – A amava?...
Luís – Sim, senhora. Era ela quem lhe dava a ambição; era esse amor que o animava no seu trabalho, e que o fazia adquirir uma instrução que depois o elevou muito acima do seu humilde nascimento. Mas sua prima o desprezou, para amar um moço rico e elegante.
Araújo (baixo) – Vais trair-te.
Luís – Não importa.
Pinheiro – Continue, senhor Viana.
Helena – Eu acho melhor que se faça uma saúde cantada.
Vieirinha – Com hipes e hurras!
Carolina – Por quê?... A história do senhor é tão bonita.
Vieirinha – Lá isso não se pode negar! É um perfeito romance.
Luís – Uma noite, no momento em que esse moço entrava, sua prima seduzida por seu amante, ia deixar a casa dos pais.
Meneses – O! Temos um lance dramático?
Luís – Não, senhor; passou-se tudo muito simplesmente. Ele disse algumas palavras severas à sua prima; esta desprezou suas palavras como tinha desprezado o seu amor, e...partiu.
Vieirinha – Como! O sujeito deixou-a partir?
Luís – É verdade.
Carolina – E a amava!...
Meneses – Era um homem prudente.
Luís – Era um homem que compreendia o prazer.
Pinheiro – Não entendo.
Luís – Ele amava essa moça, mas não era amado; nunca obteria dela o menor favor, e respeitava-a muito para pedi-lo. Lembrou-se que, deixando-a fugir, chegaria o dia em que com algumas notas de banco compraria a afeição que não pôde alcançar em troca de sua vida.
Araújo – Como podes mentir assim!
Ribeiro – Não bebas tanto champagne, Carolina. Faz-te mal!
Luís – Esse homem compreendia o mundo, não é verdade?
Vieirinha – Era um grande político.
Meneses – Da tua escola.
Luís – Desde então ele tratou de ganhar dinheiro; precisava não só para satisfazer o seu capricho, como para aliviar a miséria da família daquela moça, que com a sua loucura, tinha lançado sua mãe em uma cama, e arrastado o pai ao vício da embriaguez. Ah!...
Ribeiro – Que tens?
Carolina – Uma dor que costumo sofrer! Dá-me vinho.
Luís – É
justamente o que esse pai fazia. Sentia a dor da perda de sua filha e queria
afogá-la com vinho.
(continua...)
ALENCAR, José de. As asas de um anjo. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16675 . Acesso em: 12 jan. 2026.