Por Joaquim Manuel de Macedo (1840)
Corina Pedi e obtive que lhe permitissem isso: é a minha pobre.
Suzana Ah, e tu trazes sempre dinheiro contigo? (silêncio e confusão de Corina). Tinhas dinheiro, Corina?
Corina (abrindo os olhos) Não... tia Suzana... não tinha...
Suzana Então!... o que deste à tua pobre?...
Corina Eu não dei... recebi... tia Suzana... recebi uma carta do homem que amo, e com quem espero casar. Ei-la aqui. (mostra)
Suzana Um grave erro, menina! Tu mesma sentiste que procedeste mal, pois certamente correste, recebendo essa carta. Mas... eu tinha um peso sobre o coração... tiras-te-mo; por que não mentiste.
Corina E eu lhe digo tudo: o dr. André de Araújo ama-me...
Suzana Doutor André de Araújo?... Não conheço: onde viste esse doutor?...
Corina Outrora na casa de meu pai: nossas famílias eram amigas. Dez anos mais velho que eu, André muitas vezes carregou-me em seus braços, e quando me achei mais crescida, ele me dava bonecas e flores... foi no tempo em que eu era anjo... no tempo da felicidade e dos risos... depois...
Suzana Depois?...
Corina Meu pai morreu: vi ainda uma vez André na hora terrível do saimento para o enterro... ele chorava também, e chegando-se a mim, beijou-me a fronte... sinto ainda esse beijo, e na minha face uma lágrima que lhe caiu!... Separamo-nos; há dois anos, porém, André levou para o meu colégio uma sobrinha, viu-me, reconheceu-me, saudou-me com ternura melancólica, e eu não pude saudá-lo, porque desatei a chorar, lembrando-me de meu pai: depois... tornamos a ver-nos uma... dez... vinte vezes... e pouco a pouco... ah, tia Suzana não sei como foi... nós nos amamos.
Suzana E por que não vem ele pedir-te em casamento?...
Corina Há dois meses que o fez, e meu tutor o repeliu.
Suzana Talvez não seja digno de ti.
Corina André?... Eu ouvi o que diziam dele no meu colégio: é a virtude, a bondade e a ciência entesouradas em um homem a quem não seduz a minha fortuna, pois é mais rico do que eu, e desconhece a avareza por brilha [sic] pela caridade.
Suzana Que entusiasmo! E que te diz ele em suas cartas?...
Corina Pede-me que o ame e espere; e que respeite o meu tutor. Confesso: propus-lhe que apelasse para a autoridade e que me arrancasse deste meu cativeiro.
Suzana E ele?
Corina Condenou esse recurso que provoca o ruído público, mas assegurou-me que em caso extremo não hesitará...
Suzana E que mais...
Corina É tudo: confiar-lhe-ei todas as suas cartas. Quer ler esta que ainda não abri?...
Suzana Quero antes de tudo que me prometas não receber outra.
Corina Oh, e que será de mim?...
Suzana Sairei em breve a informar-me sobre o doutor André. Se ele for honrado e virtuoso, como o acreditas, a velha Suzana tem uma missão a cumprir, protegerá o amor da órfã, o amor de sua filha em nome de Deus.
Corina E meu tutor? E sua esposa?... E Peregrino e Carlos?...
Suzana Falei-te em Deus: como podes temer os homens?... Se o teu amor é puro, os anjos o abençoam; se és vítima de opressão e se a violência te ameaça, levanta os olhos para o céu: tem fé!...
Corina
Esperança e fé, meu Deus!... (de joelhos)
Suzana Reza! A oração é já em si uma graça, porque na oração falamos ao Senhor. Corina, reza à virgem mãe de Jesus que é a protetora e a mãe sagrada das órfãs...
Corina (começando a rezar) Ave Maria!...
Suzana Espera: tenho-te ouvido em suave canto a saudação sublime: reza cantando, mas cantando com fé! Se assim rezares com fé, as harmonias do teu canto serão asas de anjo a levar tua oração ao céu!...
Corina Oh, sim! fé! E com a minha fé, a esperança do meu amor! (senta-se à harmônica e canta — Ave Maria. Suzana, em pé, ergue os braços. (Cai o pano)
—Fim do 2º ato —
Ato 3º
— Espaçosa [sic] sala interior: porta ao fundo, pela qual se apercebe mal outra sala onde se ouve música e se dança: ao lado direito, porta abrindo para um gabinete: portas laterais, brilhantismo de luz: sinais de festim.
Cena 1ª
Peregrino sentado; Carlos que entra
Peregrino Também te aborreceu o jogo de prendas?
Carlos Se Júlia é intolerável!... Há meia hora que sem piedade me martiriza! Não pude mais sofrê-la!
Peregr.
(continua...)
MACEDO, Joaquim Manuel de Macedo. Uma pupila rica.