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#Romances#Literatura Portuguesa

Os Brilhantes do Brasileiro

Por Camilo Castelo Branco (1869)

― Vai por dar um passeio, e mais os pequenos, percebe você? Ora diga-me cá, compadre – continuou o previsto Atanásio, sem dar lugar a que o hóspede averiguasse coisas tendentes a provar que a mulher de seu amigo conciliava a pureza dos costumes com a ignorância do sinal da cruz – eu ouvi dizer, e sei com certeza, que você tinha seus amores fora de casa. Nunca lhe perguntei nada a tal respeito por se não oferecer ocasião; mas eu sei que você tinha em S. Roque da Lameira uma moçoila da sua terra, chamada Rosa; e outra na sua Quinta da Cruz da Regateira, chamada Benedita.

― Não lhe mentira. Confesso o meu pecado; mas dou-lhe a razão. Minha mulher não me tinha amor de casta nenhuma. Tratava-me como se trata um tio. Entrava e saía a semana sem me dar um beijo, nem se lhe importava que eu comesse ou não comesse. Você sabe que eu sou atreito a moléstia de fígado, e que só me sinto aliviado com papas de linhaça; pois ela mandava-me pôr as cataplasmas pelo galego! Diga-me se uma boa esposa consente que alguém ponha as cataplasmas em seu marido!... Um homem, quando anda pelos cinqüenta, precisa ser afagado, não é verdade?... É p’ra isso que eu me casei com uma rapariga pobre, apesar de ser fidalga, formando tenção de a deixar rica. Imagine você que ela nunca me fez um carinho. À minha beira estava sempre triste com a noite. Nunca se ria de chalaça que eu lhe dissesse; e depois que eu me deitava ficava ela duas horas a costurar, mais duas horas a rezar, e via-se mesmo que me aborrecia. Aqui tem você a razão por que eu trouxe da minha terra duas raparigas boas e bonitas que me amam com todo o afeto e choram quando se passam três dias sem eu lá ir.

― E sua mulher desconfiava?

― Sabia tudo, por que um brejeiro dum caixeiro, que eu pus fora, lho mandou contar numa carta.

― E ela que fez?

― Deu-me a carta, e disse que não tornasse a fazer os meus caixeiros sabedores dos meus desvarios. ― E não se zangou?

― Nada.

― Ora essa!...

― Pois se ela não me tinha amor nenhum!... Você não entendeu ainda?

― Agora percebo... Mais uma razão para termos a certeza de que ela fazia outro tanto.

― Pois isso é claro como a luz que nos está aluminando... Chegue-me daí a genebra, que estou com azia.

O brasileiro embocou a botija, gorgolejou três bons tragos, e prosseguiu:

― Se ela me tivesse amor, fazia o diabo em casa, logo que soubesse das minhas asneiras, não é verdade? Pois nunca me jogou a mais pequena chalaça a tal respeito!...

― Então não há que duvidar: – evidenciou Atanásio Mendes – sua mulher tinha com quem se distrair; e agora percebo eu como é que ela está inocente. Quer dizer na sua que está tão inocente como você, seu maganão!

Atanásio riu-se do chiste do próprio remoque.

― Pois sim – refletiu judiciosamente Fialho – mas você bem sabe que nós, os homens, não somos mulheres. Elas tem outra casta de obrigações. Se a mulher for igual ao marido, então não há honra nem vergonha neste mundo, não acha?

― Diz bem, compadre; mas é que elas abusam do exemplo que os homens dão, percebe você?

― Isso também é verdade – concordou Hermenegildo, fechando o olho esquerdo.

― Você parece que quer dormir... – notou o hóspede.

― Sim, ele agora parece que chega – resmungou Fialho, fechando o olho direito. Minutos depois, esta vítima deplorável da perversão dos costumes... roncava.

VIII REVELAÇÕES TRISTES

Àquela hora alta da noite, Ângela, ajoelhada diante do santuário, pedia à Virgem que lhe inspirasse o melhor meio de cumprir os seus deveres na apertada situação em que se via.

O ar inocente desta mulher, que se ajoelha como infeliz sem culpa, deve tocar o ânimo de quem vai lendo isto, e já desde o começo do livro pende a desconfiar da virtude da esposa do brasileiro. É, pois, tempo de antepararmos da involuntária aleivosia a mulher pura.

Na margem direita do Lima, ergue-se por entre árvores seculares o antiquíssimo paço de Gondar, cujo décimooitavo senhor, no tempo da invasão francesa, era Simão de Noronha Barbosa, capitão de cavalaria, gentil e valente, em anos florentíssimos.

Ainda não tinha dezesseis quando amou a filha de um seu caseiro, com quem queria casar-se. Os parentes e o tutor debalde lhe antepuseram os estorvos da lei e ainda ordens expressas da regência. A mulher humilde chegou a ser-lhe arrebatada e presa; mas a passagem da onda revolucionária socavou às portas ferradas da cadeia de Ponte do Lima, e remessou-lhe aos braços a formosa encarcerada. Certo general de Napoleão mandou a um vigário que os casasse em sua presença e galardoou assim a devoção, talvez forçada, de capitão português ao leão de Austerlitz.

Simão de Noronha foi ferido mortalmente no recontro de Amarante. A esposa, que o acompanhava, quando o

(continua...)

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