Por Euclides da Cunha (1909)
A indecisa arqueadura, que logo se forma, circularmente, se acentua, e, à medida que aumenta, vai tornando mais violentos os ataques da componente centrífuga da correnteza que lhe solapa a concavidade crescente, fazendo que em poucos anos todo o rio se afaste, lateralmente, do primitivo rumo. Mas como este se traçou adscrito aos pontos determinantes de um perfil de equilíbrio inviolável, aquele desvio nunca é uma bifurcação, ou definitiva mudança. O rio, depois de rasgar o amplo círculo de erosão, procura volver ao antigo canal, como quem contorneou apenas um obstáculo encontrado em caminho.
O círculo por onde ele se alonga tende a fechar-se. De sorte que toda a área de terrenos abrangidos se transmuda em verdadeira península, ligada por um istmo tão delgado, às vezes, que o caminhante o atravessa em minutos, enquanto gasta um dia inteiro de viagem, embarcado, para perlongar o contorno da terra quase insulada. Por fim esta se destaca, ilhando-se de todo. No sobrevir de uma enchente o Purus despedaça a frágil barreira do istmo; e retoma, de golpe, o primitivo curso, deixando à margem, a relembrar o desvio por onde divagou, um lago anular, não raro amplíssimo. Prossegue. Reproduz adiante outros meandros caprichosos, completados sempre pela criação dos mesmos lagos, ou "sacados". E assim vai — perpetuamente oscilante aos lados de seu eixo invariável —num ritmo perfeito, refletindo o jogar de leis mecânicas capazes de se sintetizarem numa fórmula, que seria a tradução analítica de curioso movimento pendular sobre um plano de nível.
Desta maneira, ali se resolve naturalmente um dos mais sérios problemas de hidráulica fluvial. De fato, aqueles lagos são verdadeiros diques, funcionando com um duplo efeito: de um lado impedem as inundações devastadoras, absorvendo os excessos das cheias transbordantes; de outro lado, regulam o regime das águas, durante as grandes estiagens, em que se abrem por si mesmos, automaticamente, "estourando", para usar uma expressão local, e restituindo ao rio empobrecido da vazante parte das massas líqüidas que economizaram.
Não se calcula o valor destes trabalhos colossais da natureza.
Revela-no-los bem um confronto expressivo. Os hidráulicos franceses que averbaram em 1856, como pormenor inverossímil, uma subida de 10,90m, das águas do Garona, originando uma das inundações mais funestas que têm ocorrido na Europa, - certo não compreenderiam a própria existência do vasto território amazônico convizinho ao Purus (que vale cerca de cinqüenta Garonas cheios) se soubessem que ele se alteia 15 metros na foz, onde tem uma milha de largo, e que dali a montante as águas tufam num crescendo espantoso até 23 metros sobre as estiagens, na confluência do Acre.
No entanto estas enchentes são inócuas.
A massa líqüida, inflada logo às primeiras chuvas, sobe, galgando velozmente as barrancas, e em poucos dias vai bater nos esteios dos barracões eretos nos "firmes" mais altos do terreno... e todo este dilúvio em marcha não acachoa, não tumultua, não se arremessa em correntezas vertiginosas, não enleia as embarcações torcendo-as nas espirais vibrantes dos remoinhos e não devasta a terra. Difunde-se; extingue-se silenciosamente; perde-se inofensivo naqueles milhares de válvulas de segurança; e espraiando-se, raso, pelo chão das matas, ou espalmando-se, desafogadamente, em desmarcadas superfícies onde repontam, salteadas, as últimas ramas floridas dos igapós afogados, vai, ao contrário, regenerando aquela mesma terra, e reconstruindo-a porque a torna de ano em ano mais elevada com a colmatagem perfeita de toda a vasa que acarreta.
Assim, em toda aquela planura, o notável afluente amazônico, serpenteando nas inumeráveis sinuosas que lhe tornam as distâncias itinerárias duplas das geográficas, inclui-se entre os mais interessantes "rios trabalhadores", construindo os diques submersíveis que o aliviam nas enchentes — e lhe repontam, intermitentemente às duas bandas, ora próximos, ora afastados, salpintando todas as várzeas ribeirinhas, e avultando maiores e mais numerosos à medida que se desce, e se amortecem os declives, até a larga baixada centralizada em Canutama onde as grandes águas tranqüilas derivam majestosamente, equilibradas, sulcando de meio a meio a vastidão de nível de um mediterrâneo esparso.
Mas esta formação de lagos ou reservatórios naturais, cuja função benéfica vimos de relance, acarreta inconvenientes de tal porte, que tornam, por vezes, em alguns pontos, quase impenetrável uma artéria fluvial que pelos elementos privilegiados de seu perfil concorre com as mais acessíveis à navegação regular.
Realmente nesse afanoso derruir de barrancas, para torcer-se em seus incontáveis meandros, o Purus entope-se com as raízes e troncos das árvores que o marginam.
Às vezes é um lanço unido, de quilômetros, de "barreira", que lhe cai de uma vez e de súbito em cima, atirando-lhe, desarraigada, sobre o leito, uma floresta inteira.
O fato é vulgaríssimo. Conhecem-no todos os que por ali andam. Não raro o viajante, à noite, desperta sacudido por uma vibração de terremoto, e aturde-se apavorado ouvindo logo após o fragor indescritível de miríades de frondes, de troncos, de galhos, entrebatendo-se, rangendo, estalando e caindo todos a um tempo, num baque surdo e prolongado, lembrando o assalto fulminante de um cataclismo e um desabamento da terra.
(continua...)
CUNHA, Euclides da. À Margem da História. 1909. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16624. Acesso em: 17 jun. 2026.