Por Lima Barreto (1905)
— Já estava armada? indagou com curiosidade a moça. O jesuíta, como estranhando a pergunta, esteve algum tempo analisando a fisionomia da mulher. Ela tinha um ar ingênuo, e respirava uma enorme franqueza. O padre, desesperado do esforço que fizera para penetrar-lhe no íntimo, respondeu:
— Ainda não, mas se aprestava. Os capitães já estavam levantados e o Intendente das Finanças tratava com o Ministro da Frota os navios reais a ceder.
— É certo que se dirija p’r aqui, Jean?
— É seguro o aviso, respondeu sem refletir o padre.
Sentindo que o segredo, pouco a pouco, se lhe escapava arrancado pela dama dos seus pensamentos, o padre resolveu falar pouco, tomando precauções.
— Alda! Toma tenência! Eu te vou transmitir um sagrado depósito do meu voto, e embora seja de pequena importância a sua revelação, convém que fique oculto, para que não se suspeite até onde vai o poder da Companhia.
Ouve-te e cala-te, senão, nem o meu amor te salvará, disse com ardor o jesuíta.
— Acaso, alguma vez, revelei o que confidencias? Tenho amizades na cidade, para que o possa fazer?
— Bem. Ouve, retrucou mais seguro o clérigo.
— Ouço e... perinde ac cadaver, fez com galanteria D. Alda.
O padre então prosseguiu:
— A expedição é contra S. Sebastião. Os nossos irmãos da França sabem-no com firmeza. Está rica a cidade, e a riqueza das minas fazem-na cobiçada. É presa certa e farta e em breve ela aportará. Comanda-a...
— Quem?
— Oh! Alda! Que pressa!
— Não há admirar. É do teu saber que tenho grandes conhecimentos em França, e por isso convinha que soubesse quem era o comandante, para evitar encontrá-lo. Isso em meu bem, e no teu... Assim não crês, Marquês de Fressenec?
O jesuíta, assim chamado pelo seu antigo nome do século, estremeceu na cadeira. Bem depressa recobrando a primitiva calma, foi ao chamado da pergunta:
— Bofé! Que tens razão, Condessa Alda de Lambertini. Tens razão... Quem a comanda, Condessa, é François Duclerc, da Guadalupe.
Correio da Manhã - sexta-feira, 12 de maio de 1905
OS SUBTERRÂNEOS DO RIO DE JANEIRO
O Tesouro dos Jesuítas
D. Garça
I
(Continuação)
— Ahn! É Duclerc, refletiu com indiferença D. Alda.
— Não te espantas?
— De quê? De medo, não podia ser; estou bem protegida. Demais, o nome não é tão ilustre assim; um marinheiro obscuro que quer fazer fortuna em empresas arriscadas...
— Alda! Dissimulas... escondes algum segredo...
— Eu?!
— Sim, escondes.
Ainda amas o crioulo?
— Não o amo, Jean, objetou firmemente a senhora, e bem deves ter verificado isto.
— Então de quem foi a carta da América portuguesa que ele recebeu?
— Que carta?
— Sim... uma carta. Os nossos irmãos de França pretendem que ele recebeu uma carta de Pernambuco ou daqui; e que, depois dela, provocou a expedição. — Ah! Compreendo. Queres dizer que a carta foi minha, não é?
— É...
— Ora, ora, Marquês, gargalhou a condessa. Nem pareces o fidalgo de quem Mme. de Mainte me dizia ter tanto espírito como o famoso cura de Meudon! Nem pareces o jesuíta que em poucos anos preencheu os quatro dificultosos votos da Ordem! Pois numa terra em que abundam aventureiros de toda a casta, vingativos, sequiosos e dúcteis; pois numa terra dessas, havia de ser eu, uma fraca mulher, a quem a Ordem de Jesus protege — havia de ser eu quem chamaria corsários contra ela?
A condessa italiana tinha falado com várias entonações na voz. Cedo bordava as palavras de uma tênue ironia para, depois, falar com ardor e paixão. Em outras vezes ameigava a voz com um forte acento humilde; e quando, de um só jato, lhe saiu dos lábios a última frase, o pranto aljofrava-lhe as faces de cetim.
— Não chores, Alda! É meu amor que me faz assim. Conheces o quanto ele é forte e imperioso. É um amor infernal. Por ele sofri, sofro e sofrerei durante as minhas duas vidas. Perdoa-me, Alda.
Quando o passado me vem, continuou o jesuíta com ternura, quando o passado me vem, não sei que zelos me sobem à alma. Quero penetrar, devassar arcanos do teu pensamento; e, como a bala que, por ter demasiada força, transmonta e passa além do alvo, a minha penetração me engana, me desvaira. No teu gesto mais familiar, numa palavra dita a meio, no modo por que bebes o vinho, eu vejo traições, traições.
De resto, andas sempre triste...
— E tu me querias alegre, quando deixei a consideração, a posição, o império, para viver nesta feitoria cheia de negros e selvagens?
— Mas, e eu?
— Não é o mesmo, Jean; sempre tens consideração e poder. És o respeitado irmão professor da Companhia de Jesus, enquanto que eu, que tenho o sangue de Lourenço, o Magnífico, a gentalha deste lugar tem por mim dó, piedade...
— E te aborrece?
(continua...)
BARRETO, Lima. O subterrâneo do Morro do Castelo. Brasília: Ministério da Educação, Domínio Público, s.d. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?co_obra=16831 . Acesso em: 08 maio 2026.