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#Contos#Literatura Brasileira

As Sete Dores de Nossa Senhora

Por Coelho Neto (1898)

Despojado violentamente dos trajos irrisórios com que o haviam vestido, ficou Jesus desnudo e, immovel, cheio de serenidade, o olhar parado, perdido no céu largo e abrasado. Exposto ás vistas ultrajantes da soldadesca desabrida, que o cercava, e do povo amotinado e ansioso pelo espectaculo da morte, ali esteve soffrendo todas as affrontas todos os vilipendios, sugeito aos commentarios mais soezes da gentalha que ria da extrema magreza do seu corpo maculado de ecchymoses e seviciado pelos flagellos.

Moços languidos, alongando os braços nus nos quaes tiniam luzentes armillas de ouro e de marfim, caminhavam vagarosos, soerguendo as tunicas para evitar a urze ou para que lhes vissem os cothurnos os recamados de perolas.

Mulheres cochichavam. Ao aroma do nardo misturavam-se o fortum de suor e o cheiro agreste e do suarda que tresandavam os grosseiros pastores e os tintureiros cujas mãos pareciam erduvadas em purpura ou em azul.

Crianças immundas jogaram pedrinhas, amatilhadas nos vãos das rochas e velhos maltrapilhos, arrepanhando os sórdidos farrapos, ganiam estendendo as mãos engelhadas ou mostrando chagas em sangue em torno das quaes as moscas assanhavam-se.

Era como uma feira alegre e rumorosa o lugubre planalto. Luziam ao sol os capacetes dos legionarios; as lanças, encostadas nas rochas, em feixes, faiscavam como se um lume lhes ardesse no ferro, e, de quando em quando, roufenha, a buzina resoava.

Já os dois ladrões estorciam-se nos seus cruzeiros. Um d'elles, enfurecido, com a espuma a ferver-lhe aos cantos da boca, contrahida em rictus, injuriava o povo, bradava insultos em voz rouca e arquejada ; o outro, resignado, meneava a cabeça e via-se-lhe crescer o peito, encher-se-lhe o ventre na ansia da respiração angustiada.

Lagrimas lentas desciam-lhe ao longo da face, abrindo dois laivos na poeira que a avermelhava. Em volta, a turba, contida pelos legionarios, resmungava, protestando contra a, aspereza do centurião inflexivel que não permittia a passagem além do limite traçado por uma corda de linho. Alguns, mais atrevidos, investiam, agarravam a corda sacudindo-a, mas legionarios corriam apontando as lanças ou brandindo gladios e era uma debandada confusa, um atropello de recúo e atroavam gritos. Alguns rolavam espesinhados e ficavam escabujando, guaiando na poeira.

Jesus não fazia o mais leve movimento. Do instante a instante um frêmito crispava-lhe a face livida, as palpebras batiam em pa]pitações repetidas e a boca descerrava-se-lhe. Mas a sua. attitude mantinha-se como a de uma estatua, impassivel no meio d'aquella. turba borborinhante, que grasnava, vociferava e ria fervilhando no monte como abutres em carniça.

Nuvens negras subiam pesadamente, acastellavam-se no ceu, como outeiros que se houvessem levantado nos ares e lá fossem, com as suas corcovas escuras, construindo cordilheiras no espaço. O ar era denso, empoeirado.

Corvos passavam em vôo rapido ou baixavam cangados e, d'azas abertas, ficavam pousados nas arestas das penhas, olhando as cruzes, com curiosidade humana.

Um homem escuro, quasi negro, de grenha crespa, com um saião remendado, as pernas escalavradas, passou por baixo da corda que limitava o âmbito da justiça e, silenciosamente, desenrolando um avental de couro, despejou sobre o pedregullio uma grossa ferragem. Àgachando-se, então, poz-se a escolher cravos, experimentando-lhes a ponta na palma da mão callosa e, tomando três dos mais agudos, adiantou-se de vagar, d'olhos fitos no rabbino.

Então um legionario moço desligou os pulsos vincados do martyr e, impondo-lhe as mãos brutas ao peito macilento, ripado pela ossatura saliente, levou-o, aos safanões, até o cruzeiro que jazia, em terra, com a base chegada a uma cova, e, com um empurrão, derrubou-o nas pedras, porque era todo um rebo áspero de cascallio o ponto da montanha, onde se realisavam os supplicios.

Dois legionarios, alagados em suor, com os capacetes atirados para as costas, arrastaram o nazareno, deitaram-no a fio sobre a cruz e o homem escuro, cavalgando-o, tomou-lhe um dos braços, esticou-o, espalmou-lhe a mão e, impondo um cravo, bateu-o. O sangue espirrou em esguicho, correu em jorro, empastou-se em coagulo.

Saltando ágil sobre o tronco do condemnado impassível estivou-lhe o outro braço e, de novo, o martello troou em pancadas que os echos redobravam. Repuxou os braços pregados, mirou-os e, d’um salto, passou á base do cruzeiro, juntou os pés de Jesus e, fincando o cravo, martellou com furor, a mãos ambas, arfando.

Um tremor percorreu todo o corpo do paciente, a boca abriu-se-lhe lentamente, como em bocejo, cerraram-se-lhe os olhos e mais livido se lhe tornou o rosto marejado de suor.

(continua...)

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