Por Lima Barreto (1911)
Fuas Bandeira desculpou-se preliminarmente por ter vindo incomodá-lo tão cedo e expôs com franqueza o objeto da sua visita. A rejeição do “veto” oposto ao projeto de venda da Estrada de Mato Grosso devia ser posta em ordem do dia e Fuas esperava que Numa voltasse pela rejeição.
O legislador afastou da lembrança a figura da estatueta e respondeu:
— Qual é a opinião de Bastos?
— A mim, meu caro doutor, ele já me disse que não tinha opinião firmada.
Dá mesmo a entender que é questão aberta...
— Mas não disse claramente?
— Não, não disse. O doutor sabe como é o Dr. Bastos. Ele não costuma dizer, quando se trata de insignificâncias. penso assim ou não. Parece-lhe que dizer a tal respeito a sua opinião é insinuar que os seus amigos votem com ele. O Dr. Bastos já está tão farto de ouvir dizer que ele violenta a consciência dos seus amigos, que é um ditador, que é a sua vontade que domina a dos outros, que ele é o partido. Ora, doutor, quando se trata dessas coisas de nonada, ele abstém-se de falar para que os republicanos votem como entendam.
— Mas no caso do Peixoto...
— Ah! doutor! O caso aí outro. Tratava-se, é verdade, de uma licença, mas Peixoto é inimigo do partido, inimigo acérrimo. Com o caso da Estrada, não há nada disso, posso garantir-lhe!
— E o povo?
— O povo! O povo! Que tem o povo com estas questões? Por acaso ele pode raciocinar sobre finanças? Creio que não, meu caro doutor. Não é a sua opinião?
— Dizem que o governo gastou cem mil contos e vai vender pela metade.
— Não é certo; mas, se o fosse, valia a pena contar também com o “déficit” que ela dá. A operação, meu caro doutor, traz desafogo para o governo, não só para já, como para o futuro. O meu interesse como republicano, é facilitar meios de vida à república e também educar o Brasil no caminho da iniciativa particular. Se até agora ela não se tem feito sentir na economia do país, é devido à timidez dos senhores diante da algazarra dos caluniadores.
A teimosa fragilidade da estatueta passou de novo pelos olhos do antigo juiz de Catimbao.
Fuas Bandeira acendeu o charuto e continuou de pé:
— O doutor, certamente, conhece bem a questão?
— Pouco.
— Pois se quer... Ah!
— Que procuras, Sr. Fuas?
— A minha pasta... Está no automóvel.
Numa fez vir o criado para buscá-la e dela tirou o jornalista um folheto explicativo sobre a vantagem da operação. Ainda falaram sobre outras questões; Fuas não aceitou o almoço e despediu-se recomendando:
— Leia, doutor! Leia! Quanto à opinião do Dr. Bastos, não se incomode, pois ele dá toda a liberdade a seus amigos.
Quando Numa voltou em demanda ao interior da casa, ainda olhou distraído a estatueta que continuava repousada, serena, na meia penumbra do salão.
A vida do casal continuava a ser a mesma. Viviam um ao lado do outro, sem grandes ternuras, sem ódio, sem também a perfeita e mútua penetração que o casamento supõe. Pareciam habituados àquele viver desde muito tempo; e D. Edgarda costumava a velar, a animar a carreira política do marido, maternalmente.
Era a sua ambição que se realizava na celebridade do marido. Educanda das irmãs, de Botafogo, ela não queria ficar atrás das outras e lembrava-se do que lhe dissera certo dia à irmã Teresa, com sua voz macia e aquele olhar inteligente que dava tanta vida à sua cútis de pergaminho.
— Veja só, Edgarda, quase todos os homens importantes do Brasil têm casado com moças educadas aqui. A mulher do Indalécio, O Ministro da Justiça, foi nossa discípula; a Rosinha, que se casou com o Castrioto, do Supremo Tribunal, também; e a mulher do almirante Chavantes? e a Laurentina? como era bonita, meu Deus! Coitada! essa morreu cedo mas o marido foi longe. É rara, minha filha, a educanda nossa que não leva o marido longe.
(continua...)
BARRETO, Lima. Numa e a ninfa. Brasília, DF: Ministério da Educação, Domínio Público. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16822 . Acesso em: 29 abr. 2026.