Por Aluísio Azevedo (1887)
Sim senhor, porque o Dr. Tolentino não gozava boa saúde. Era ainda jovem e parecia velho; extremamente magro, vergado, um pouco giboso, olhos fundos, faces cavadas, cabelo pobre e uma tosse de a cada instante. Todo ele respirava longas noites de estudo, sobre grossos livros de direito ou defronte das carunchosas pilhas dos autos; todo ele estava a pedir, com seu magro pescocinho, um longo cache-nez bem quente, e as suas mãos, extensas e magras, queriam luvas de lã; e os seus pés, longos e espalmados, exigiam sapatos de borracha. Não produzia lá muito bom efeito o vê-lo assim desmalmado, muito comprido dentro da sua sobrecasaca abotoada de cima a baixo, olhando tristemente para a vida por detrás dos seus óculos de míope.
Muito bom efeito — não, não produzia; mas também não produzia muito mau, graças à delicadeza dos seus gestos e à expressão inteligente do seu rosto cor de palha de milho. Cheirava a doença; mas, palavra de honra, falava que nem o José Bonifácio.
Não! definitivamente merecia a fama de homem ilustre!
O seu namoro à filha do Conselheiro foi calmo, correto e persistente. Porém inútil: Magdá, depois de muita negaça, muita hesitação e muito constrangimento, resolveu não o aceitar.
Já lá se ia entretanto quase que meio ano depois do primeiro ataque, e ela começava a torcer o nariz à comida, a fazer-se mais magra, mais irritável e mais sujeita a sobressaltos nervosos.
Abatia.
O drama, a música triste, o romance amoroso, provocavam-lhe agora um choro, que principiava pelas simples lágrimas e acabava sempre em convulsivos. Ao depois — aí estavam as pontadas no alto da cabeça, o embrulhamento do estômago, os terrores infundados, o exagero de todos os seus atos e em estranho desassossego do corpo e do espírito, que a fazia andar inquieta por toda a casa sem parar três segundos no mesmo ponto.
— Temo-la travada! Exclamava o seu médico; até que, uma ocasião, avançando furioso de punho fechado contra o Conselheiro, gritou-lhe, cerrando os dentes e arreganhando-os: — Que diabo, homem! casa esta pobre rapariga, seja lá com quem for!
— É boa! Respondeu o outro! — Ainda mais esta!... Pois você acha que, se houvesse aparecido com quem, eu já não a teria casado?
— Ora o que, meu amigo! As minhas observações não me enganam: ela tem qualquer amor contrariado, que não me confessa; e você com certeza sabe de tudo e cala o bico por conveniência... É que para o sujeito, naturalmente, é um tipo sem eira nem beira!... Ah! Eu compreendo estas coisas... mas, em todo o caso, fique sabendo para o seu governo que você está mas é preparando uma doida de primeira ordem! Ora aí tem!
O Conselheiro deu a sua palavra que não sabia de nada, e afirmou em boa fé que a filha não tinha namoro oculto, nem claro; se o tivera, já ele o houvera descoberto.
— Pois se não tem, é preciso arranjá-lo e arranjá-lo já!
Surgiu então o Conde do Valado.
Trinta a trinta e cinco anos. Elegante, louro, meio calvo, barba rente espetando no queixo em duas pontas de saca-rolha; olho azul, monóculo, o esquerdo sempre fechado; uma ferradura de ouro guarnecida de pequeninos brilhantes, na gravata, que também era toda sarapintada de ferraduras; luvas de pele da Suécia com três riscões negros em cima; sapatos ingleses, mostrando meias de cor, onde havia ainda pequenas ferraduras bordadas a seda.
Este, quanto ao chamado vil metal, não tinha nem pouco, nem muito; era pobre, pobre como o país onde nascera; mas descendia em linha reta de uma família portuguesa muito ilustre pelo sangue, e em cujos primeiros galhos até príncipes se apontavam. Vivia a custa de um cavalo igualmente puro no sangue e na raça, com o qual apostava no Prado. De resto — falava inglês, fumava cigarrilhos de Havana, bebia cerveja como qualquer doutor formado na Alemanha e tinha o distintíssimo talento de encher cinco horas só a tratar de jóquei-clube.
Magdá ficou muito impressionada quando o viu pela primeira vez passar a meio trote na praia de Botafogo fazendo corcovear à rédea tosa um alazão do Moreaux. Achou-o irresistível de botas de verniz, elegantemente enrugadas sobre o tornozelo, calção de flanela branca abotoado na parte exterior da coxa, jaleco de pelúcia cor de pinhão com passamantes e botões de prata, chapéu alto de castor cinzento e luvas de camurça. Por muitos dias conservou no ouvido o eco daquele estalar metódico e compassado, que as patas do animal feriam no calçamento da rua. E, em família, tanto e com tamanha insistência falou do tal conde, que o pai, mau grado as informações contrárias que obtivera a respeito dele, deu providências para o atrair à sua casa.
Foi uma corte sem tréguas a do Valado. Perseguia Magdá por toda a parte; passava-lhe a cavalo pela porta todos os dias; convidava-a para todas as valsas; fazia-lhe declarações de amor em todas as ocasiões.
— Então? perguntou o Conselheiro à filha, depois de lhe comunicar que o conde acabara de pedir a mão dela.
— Não sei, respondeu Magdá. Mais tarde, mais tarde terão a resposta... É bem possível que aceite...
(continua...)
AZEVEDO, Aluísio Azevedo. O homem. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=7408 . Acesso em: 18 mar. 2026.