Por Aluísio Azevedo (1890)
Mas, por uma sucessão de idéias, aquela história supersticiosa da velha trouxera-lhe à memória as profecias da Zabanila. Sacudiu os ombros. E, aproximando a cadeira da cadeira de Maria, pôs-se a conversar com ela, em voz baixa. Depois levantaram-se, voltaram à janela.
A Marta do Peixe ia retirar-se discretamente da sala, frechando para a janela um olhar meloso e brejeiro de rufiona entendida. O príncipe falou:
- Olá! mulher! podes levar a luz!
O Satanás saiu, e foi à praia apreciar a noite. E a sala às escuras encheu-se de beijos.
A mesa ficara posta, com a terrina destampada. E talvez, naquela escuridão, a alma faminta de d. Bias andasse em comunicações espíritas com a alma cheirosa do peixe...
Havia meia hora que estavam sós os amantes, quando o Satanás falou da porta:
- Senhor!
- Que é? saiu das trevas da sala a voz do príncipe, enfadado.
- Cousa séria.
- Ora, deixa lá as cousas sérias para amanhã, homem!
- E o capitão das guardas que aí está.
- Que espere.
- Não pode esperar. É preciso que fale já com ele.
- Vai-te para o diabo e deixa-me em paz!
- Ouça, senhor...
- Arre, vai-te! já te disse...
- Perdão! não me vou. Acabam de chegar despachos assustadores de Lisboa.
O príncipe resolveu-se a desenlaçar-se dos braços da amante. Saiu. O capitão esperava-o. Depois de uma curta conferência, o príncipe veio despedir-se de Maria. Outra vez a sala se encheu de beijos. E o príncipe, elevando a voz, chamou pela Marta.
Ela veio logo, muito azafamada, arrastando as banhas pesadas. E ajoelhou-se, comovida, quando o seu hóspede lhe meteu na mão duas moedas de ouro.
Nessa mesma noite, o príncipe saiu de Santos, acompanhado por um regimento de cavalaria. E a madrugada despontava, banhando de ouro e fogo os píncaros de Cubatão, quando a comitiva começou a subir a serra, a caminho de S. Paulo.
VII
D. BIAS CARCEREIRO
Feitas as revelações e escorropichado o primeiro pichel ali na bodega do Trancoso, d. Bias pôsse a refletir sobre o caso.
- O Satanás tinha partido na direção da rua do Conde. Lá chegando ele deveria necessariamente intrometer-se naquele drama tenebroso, cujos pormenores, ele, d. Bias, não conhecia, e cujo desenlace ficava para além, misterioso e vago como uma ameaça constante. E o Satanás, que não devia morrer, porque os homens daquela têmpera nunca morrem a botes de espada, o Satanás viria tomar-lhe contas, pedir-lhe satisfações do auxílio que prestara ao príncipe para que este lhe roubasse sua amante. E d. Bias esbugalhou os olhos em derredor, assustado e trêmulo. Sentiu a espada do escultor prancheando-lhe o costado manejada pelo pulso valente de Pallingrini. Supôs até o aço frio e cortante a entrar-lhe pelas carnes adentro. Teve medo, muito medo. E apalpou os ossos para saber se eles ainda estavam inteiros e bons, se não se tinham já esmigalhado com esta perspectiva infalível de uma vindita do Satanás.
- Também, quem lhe encomendara o sermão? quem lhe mandara meter-se nessas cousas eintrigas amorosas do príncipe? Já quando promovera a entrevista com Zabanila, a esperança dos lucros fabulosos que fizera, empanara-se com a expectativa da rivalidade com o mestre d'armas. Este pespegara-lhe uns cachações. E bastava. Pela primeira vez não tinha apetite de repetir.
E d. Bias reconheceu a necessidade de fugir; de esconder-se, fosse lá onde fosse.
Saiu.
Na rua teve uma idéia, idéia luminosa, dessas que só aparecem uma vez na vida de um homem.
Mau grado a sua nenhuma vocação para semelhantes empresas, atravessou o campo da Alampadosa todo inteiro, enveredou pela rua da Cadeia, e veio andando, pé aqui, pé ali, evitando as poças de água, aproveitando as pedras mais altas, às vezes esgueirando-se rente às paredes.
Chegou ao convento do Carmo e bateu, de espaços em espaços, compassadamente, numa porta baixa e estreita que dava para o largo. Abriram-na. Ele entrou.
- Então?
- Novidades.
- Mas ela está dormindo.
- Bem. Eu durmo aqui para esperar. Mas que ninguém saiba de minha presença nestes lugares.
E dormiu por sobre um caixote oblongo, desses que então serviam para guardar roupas de mulher.
No dia seguinte, pelo meio-dia, mandaram-no chamar.
D. Bias foi introduzido num vasto aposento luxuoso, onde morava ostensivamente a amante ostensiva de d. Pedro. Aposento de amores, onde a fantasia da mulher pusera alguma cousa de asiático, ele era suntuoso de comodidades, cheio de coxins forrado a pano da Pérsia com tachas de ouro e prata.
Ela, a quase rainha, esperava-o, molemente reclinada sobre o leito, com as grandes carnações leitosas e fortes de mulher sadia, apenas envoltas em uma vasta túnica de cachemira branca, bordada a ouro. Uma dama penteava-lhe com pente de ouro os longos cabelos castanhos e sedosos. E a Domitila sorria, triunfalmente bela. D. Bias ajoelhou-se.
- Senhora! disse. - Senhora, eu tenho vigiado.
- E já descobriste porventura alguma cousa, oh! tu! meu belo fidalgo das Espanhas.
(continua...)
AZEVEDO, Aluísio Azevedo. O esqueleto. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=7409 . Acesso em: 18 mar. 2026.