Por Joaquim Manuel de Macedo (1862)
A província da Bahia o mandou, em 1821, como um dos seus deputados à Constituinte de Lisboa e aí Lino Coutinho foi um corajoso defensor da causa da sua pátria.
De volta ao Brasil, teve assento na Câmara temporária, logo na primeira legislatura, e foi um dos mais vigorosos e ardentes oradores da oposição liberal.
Lino Coutinho sentava-se na câmara ao lado de Vasconcelos, o célebre lidador do nosso parlamento, e, se não era como este um discutidor profundo, mostrava-se em compensação muito mais ameno. Primava pela graça, pelo espírito, e às vezes, por um sarcasmo pungente. E o povo, que muito se aprazia de ouvi-lo, chamava-o o deputado das galerias, isto é, o deputado querido das galerias.
Em 1830, a Câmara temporária, achando-se em desacordo com o Senado a respeito do orçamento, nomeou para uma comissão que devia ir propôr ao Senado a fusão das câmaras os três Deputados Liberais Vas concelos, Lino Coutinho e o Sr. Limpo de Abreu, atual visconde de Abae té. E, quando a comissão partia, o povo entusiasmado arrancou as bestas do carro e levou em triunfo os três deputados de sua confiança.
Não aplaudo o fato, não gosto de ver o povo rebaixando-se a fazer papel de cavalo ou de besta de tiro. Mas vou dizendo as coisas como elas se passaram.
José Lino Coutinho, muito estimado da população, influente na Câmara temporária, justamente apreciado por seu talento, instrução e por uma grande e bem merecida reputação de probidade, foi logo chamado pela regência permanente para o primeiro Ministério que ela organizou em 1831, e aceitando a pasta do Império, teve por companheiros no gabinete, entre outros, o Padre Feijó e Vasconcelos.
Lino Coutinho foi um ministro do Império ativo e dedicado. Apesar das dificuldades da situação, achou tempo e meios de reformar a Academia de Medicina, a Imperial Academia das Belas-Artes, e, além de muito mais, de atender à situação em que se achava o seminário dos pobres órfãos de S. Joaquim.
Vou dizer o que ele fez deste estabelecimento.
Ou porque achasse que bastava o seminário de S. José para habilitar os jovens que se destinassem à carreira eclesiástica, ou porque julgasse que o de S. Joaquim, com as suas aulas de latim e de cantochão, não era o mais útil aos órfãos pobres, o certo é que mudou completamente a natureza da instituição, como se vai ver.
Por decreto de 12 de dezembro de 1831, foi reformado o seminário de S. Joaquim, dando-se a inspeção dele à Câmara Municipal, e adotando-se por fim do estabelecimento educar convenientemente e habilitar os órfãos desvalidos nos exercícios de misteres honestos e proveitosos. Admitiam-se também pensionistas que deviam pagar cinqüenta mil-réis por trimestre, e determinava-se que, em identidade de circunstâncias, fossem preferidos para os lugares de alunos gratuitos os filhos de militares e empregados públicos.
Criaram-se no estabelecimento as seguintes cadeiras: de primeiras letras, pelo método de Lancaster, de matemáticas e de desenho, e ensinavam-se os misteres de torneiro, entalhador, litógrafo e abridor.
E ensinava-se mais o jogo das armas e o exercício e manejo da guarda nacional.
Evidentemente, pois, o seminário dos pobres órfãos de S. Joaquim perdeu com o decreto de 12 de dezembro de 1831 a sua natureza primitiva. O sistema de administração e inspeção da casa estava mudado e era outro o fim da instituição.
Em consciência me parece que a reforma do seminário de S. Joaquim, executada pelo Ministro Lino Coutinho, devia e podia ser ainda mais útil aos pobres órfãos do que a antiga instituição tal qual fora por muitos anos, porque nesta a instrução secundária limitava-se apenas ao latim, e a educação era só tendente a preparar os jovens a seguir a carreira eclesiástica, que, aliás, exige, mais do que outra qualquer, uma decidida vocação, ao mesmo tempo que no estabelecimento organizado pelo Governo da regência oferecia-se instrução menos resumida e muito bem calculada para aproveitar aos jovens em qualquer dos misteres que ali também se aprendiam, e que podiam dar aos alunos meios de vida diversos, seguros e honestos.
Pode-se notar que ainda se limitava bastante o ensino de ofícios e artes, mas convém não esquecer que a 12 de dezembro de 1831 o Governo da regência começava apenas a ensaiar uma instituição que podia depois receber um grande desenvolvimento.
A reforma de que trato apresenta ainda dois pontos que eram
próprios da época, duas idéias que eram frutos do tempo.
(continua...)
MACEDO, Joaquim Manuel de. Um passeio pela cidade do Rio de Janeiro. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=19326 . Acesso em: 31 jan. 2026.