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#Romances#Literatura Brasileira

O Moço Loiro

Por Joaquim Manuel de Macedo (1845)

— Isto é insuportável!... exclamou Félix.

— Sim ou não?...

— Meu primo!... deixa-me!... deixa-me!...

— Sim ou não?...

— Meu primo!... isto chama-se abusar!...

— Sim ou não?... gritou Manduca.

— Não, não e não!

— Pois, então, disse Manduca com o maior sangue-frio, vamos ao morro de Santa Teresa pôr termo às nossas dúvidas.

— Um desafio?...

— Sem dúvida.

— Estarei às suas ordens amanhã todo o dia... agora é impossível... é noite.

— Nada: há de ser agora mesmo; eu não tenho medo de errar o tiro.

— Amanhã... amanhã somente.

Não senhor, nessa não caio eu; sei bem como se arranjam as coisas para chegar uma denúncia aos ouvidos do chefe da polícia...

— Senhor!...

— Agora, se está com medo... é outra coisa...

— Não! vamos!... já que o quer... saiamos!...

Félix, exasperado, dava um passo para sair, quando as portas do guarda-roupa se abriram, e o desconhecido saltou entre os dois.

— O Sr. Félix não pode sair, disse ele.

Félix tornou a cair sobre sua cadeira, enquanto Manduca, espantado, perguntou:

— Onde estava o senhor metido?...

— Dentro daquele guarda-roupa, respondeu ingenuamente o desconhecido.

— E, então, diz que meu primo não há de sair comigo?...

— Sim; e digo ainda mais, que ele o vai satisfazer prontamente.

— Como?...

O desconhecido voltou-se para Félix:

— Sr. Félix, a sua vida por hoje me pertence. Portanto, não a pode ir assim parar no jogo de um duelo: façamos, porém, por concluir isto amigavelmente... e tanto mais que o senhor seu primo tem que fazer comigo esta noite.

— Eu?...

— Sim, senhor; em breve falaremos. No entanto, o Sr. Félix vai responder-me sem dúvida: é certo que deu à senhora sua prima a esperança de com ela casar-se?...

Félix não respondeu; ele tremia mais que nunca; porque o riso do sarcasmo, o riso insultante da ironia estava nos lábios do desconhecido; Félix tremia de medo... e de raiva.

— É certo?... repetiu o desconhecido levantando a voz; verdade, Sr. Félix, verdade; é certo?...

— Sim... balbuciou o infeliz moço.

— Pois, senhor, disse o desconhecido voltando-se para Manduca; pode assegurar à sua irmã que seu primo está pronto para cumprir o que disse; não é assim, Sr. Félix?...

— Sim...

— Será possível!... exclamou Manduca espantado; porém, que diabo de homem é o senhor?...

— Um íntimo amigo de seu primo; não é assim, Sr. Félix?...

— Pois, senhor, fico-lhe muito agradecido pelo obséquio que acaba de fazer-me; e como desejo ir já levar a resposta à mana Rosa, espero que me diga qual é o negócio que tem comigo esta noite.

O desconhecido tirou o relógio, e depois de examinar as horas, disse:

— Às nove horas da noite esteja o senhor junto à igreja da Lapa do Desterro.

— Posso saber para quê?...

— Basta saber que é para salvar de um perigo iminente a Sr.ª D. Honorina... armam-lhe terrível laço.

— Quem?...

— Um homem chamado Brás... — Por alcunha — o mimoso?...

— Exatamente.

— Estou pronto; lá estarei. Adeus, meu primo; senhor, até às nove horas da noite.

— Junto à igreja da Lapa do Desterro.

Manduca saiu. Apenas se viu só com Félix, o desconhecido o segurou pelo braço, e levantando-o da cadeira:

— Agora a cruz cravada de brilhantes!... disse ele.

Félix dirigiu-se à carteira, abriu-a... descobriu um escaninho de segredo, e daí tirou uma boceta forrada de veludo preto; abriu depois esta, e o desconhecido viu uma cruz cravada de brilhantes.

— O senhor acha-se vestido... tome a casaca, e saiamos.

— Para onde?... perguntou Félix.

— Para ir à casa de Hugo de Mendonça entregar a cruz de brilhantes a Honorina.

— Oh!... não!... senhor!... eu não posso!...

— Há de ir: eu lhe prometi que seria por eles perdoado; disse-lhe que bastariam duas únicas palavras.

— Será possível?...

— Eu lho prometo de novo pela minha honra.

— Mas a quem direi essas palavras?...

— A Honorina.

— E quais são essas palavras?...

— Peça-lhe de joelhos, que ela obtenha o perdão e o esquecimento de seu crime... digalhe que só uma pessoa no mundo foi capaz de obrigá-lo a ir restituir-lhe a cruz de brilhantes, e a provar assim a inocência de seu primo Lauro de Mendonça; mas que essa pessoa exige dela que lhe perdoe, e que faça com que sua família perdoe também e esqueça o seu delito... Honorina lhe perguntará quem pôde fazer tanto, e o senhor responderá que foi... note bem, senhor, aqui vão as duas palavras...

— Diga-as...

— O moço loiro.

XXXV

Jorge e Raquel

Há uma dor aguda e profunda que punge como nenhuma outra; uma dor para a qual não há medicina possível — é o amor sem esperança.

(continua...)

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