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#Romances#Literatura Brasileira

Numa e a Ninfa

Por Lima Barreto (1911)

Quando o Bastos, líder de sua bancada, apareceu, Numa apressou-se em indagar.

— É o Quitério Almada.

— Quem é?

— Não conheces? É um rapaz de muito talento.Escreve artigos maravilhosos.

— Esses talentos...

Numa não gostava dos talentos, não invejava; não gostava mesmo, achavaos prejudiciais à vida, fracos para obter a mínima coisa, orgulhosos e exigentes e, como que a perturbar a existência dos felizes, com a atenção que se devia a eles.

— Não gosta dos talentos? — perguntou-lhe o Bastos.

— São muito pretensiosos, não se submetem a ninguém e não amam ninguém.

— Quem ama alguém?... Aquele que estás a ver, o Quitério, esteve sempre disposto a submeter-se. Muda de senhores, mas se submete...

Numa não insistiu com o colega de bancada. Ele o sabia mordaz na familiaridade, com pequenas ironias, num cinismo de que ninguém o tirava. Afastouse.

Fora um ato de perversidade a eleição de Bastos pelo Neves Cogominho. Obscuro e pobre, sem nenhum título valioso aos olhos da política, certo dia publicara um pequeno folheto sobre a história que chamara a atenção dele. Neves Cogominho, para mostrar que a sua oligarquia sabia abrir caminho aos jovens talentos, fizera-o deputado estadual e mais tarde federal. Bastos julgou que o melhor meio de manter a posição era apagar-se completamente, não dar na vista e assim o fez. Vingava-se fazendo troças em família, arquitetando ditos e frases.

A manifestação não chegava e aquela gente fria ansiava pela sua chegada e a sua dissolução, para que ficassem à vontade, longe da presença daqueles vagabundos que deviam compô-la.

A política, por esse tempo, mais do que nunca, constituía num jogo de interesses estritamente pecuniários, representados pelos proventos dos cargos e o que se arranja com auxílio deles. Mais atroz e feroz esse jogo aparecia à vista da temporariedade dos cargos e da falta de uma base fixa e forte em que os detentores atuais se apoiassem ou pela bajulação, ou pelo talento, ou pelo sangue, como aconteceria se estivéssemos sob um Império ou numa monarquia qualquer.

A simulação eleitoral nos Estados não bastava, pois havia ainda o reconhecimento nas Câmaras, onde uma maioria audaz e desavergonhada podia tudo fazer e desfazer com o monte de atas falsas que chegavam.

De forma que todo o trabalho dos feudatários estaduais estava em ter sempre ao seu lado essa maioria, para que os descontentes de todos os matizes não se servissem deles para alcançarem os postos de governo.

A grande habilidade dos chefes estava em manobrar essa maioria no Senado, tendo para isso um grande império na Câmara.

Se houvesse algum chefe estadual recalcitrante. A entrada do seu representante no Senado seria cortada; e, como todos queriam essa entrada, faziam os seus homens na Câmara obedecer aos ditames dos chefes coligados.

Sofônias Antônio Macedo da Costa era o diretor da política nacional.

Obtivera esse poder com os meios mais insignificantes, com intrujices de comadre, com abraços e salamaleques e também com certo ascendente de forças que não se lhe podia negar. Ele metia um pouco de medo; medo de quem está em presença de um valentão, mas medo.

Nada, além disso, o fazia notável, nem o saber, nem o talento, nem a ilustração. Nada! Embora bacharel, não tinha aí pelos seus cinqüenta e poucos anos a menor reminiscência das coisas do seu curso e dos seus preparatórios. Certo dia, em face do mar calmo, querendo fazer frase, disse com ênfase: “O mar está no seu “status quo”; em outra vez, num discurso, dissera: “Não posso admirar esses “bonzos” de uma nova trindade védica”.

Como estas, contavam-se dele muitas anedotas e ele ia, entretanto, dominando, ora com astúcia, ora com golpes de força, aquelas fracas vontades e aquelas duvidosas inteligências.



(continua...)

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