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#Romances#Literatura Brasileira

O Coruja

Por Aluísio Azevedo (1895)

O Picuinha afinal caiu nesse estado mórbido das pessoas inutilizadas pela bebida e do qual, como os trabalhadores das minas de mercúrio, só conseguem fugir por instantes refugiando-se no próprio veneno que os corrompe e mata.

Acordava muito mole, com um pigarro convulso, que só deixava depois que ele vomitasse a sua pituíta dos ébrios; e pela manhã tinha sempre o corpo dorido, a salivação grossa e amarga, os intestinos em brasa, os olhos ardendo e lacrimejando; mas, era só beber um trago de parati, e ficava logo esperto.

Também, agora não precisava de mais para aprontar-se; uma dose pela manhã, antes de entrar no serviço; outra à tarde, ao deixá-lo, e ninguém o via senão ébrio.

Os superiores começaram, pois, a repreendê-lo com mais freqüência e já o ameaçavam com uma queixa ao chefe; na repartição diziam todos que, se ele há muito não estava na rua, era simplesmente porque o comandante tinha pena de deixar aos paus um pobre diabo com a mulher e filhos.

Não obstante, depois de mais algumas crises como a que o tomou pela primeira vez, o Picuinha ficou irremediavelmente perdido e incapaz de todo e qualquer serviço. Estava até meio idiota e o corpo tremia-lhe todo como o de um velho de cem anos.

XXI

- Uma desgraça nunca vem só! considerou D. Margarida, pois que justamente quando o genro se inutilizava para ganhar o pouco que até aí ganhava, era ela acometida por uma carga de reumatismo. e tão forte, que não lhe permitia servir-se dos braços, nem das pernas.

O Coruja, sabendo disto, foi visitá-la incontinenti.

- Ah! É você?... resmungou a velha, ao ver entrar no quarto a entristecedora figura de André.

Inez escondeu-se para não lhe aparecer.

Ele estava muito acabado e abatido; parecia mais velho, ainda no seu andar de coxo.

- Então! Você foi quem se lembrou de vir visitar-me, hein? Grande caiporismo, o meu!

E a voz da velha era repreensiva e dura.

- É exato.. . respondeu Coruja, indo assentar-se ao lado da cama em Que ela estava estendida. - É exato; ouvi dizer que a senhora e os seus têm curtido ultimamente bem maus pedaços...

- Por sua causa, atalhou Margarida, gemendo pelo esforço de mexer com um dos braços - só ao senhor devemos tudo isto!

- Pois acredite, minha senhora, que nunca pensei em fazer-lhe mal de espécie alguma... resmungou o acusado, sentindo-se já comovido em meio de toda aquela desgraça.

- Ora! rosnou a outra, se o senhor não tivesse procedido pelo modo imperdoável com que procedeu conosco, minha filha não teria caído nas mãos daquele homem e ambas nós não estaríamos neste bonito estado!... Até digo-lhe mais: o senhor, se tivesse um bocado de consciência, nem poria mais os pés nesta casa!

- Engana-se, D. Margarida, justamente por não me faltar consciência é que vim procurála; quero ser útil à senhora e à sua filha, naquilo que estiver ao meu alcance.

- E com isso nada mais faz do que o seu dever!

- Bem sei; bem sei que o dever de todos nós neste mundo é auxiliar-nos uns aos outros e, tanto assim que aqui estou. Olhe! não lhe poderei dar muita coisa, porque desgraçadamente de muito pouco disponho na presente ocasião, mas com o pouco também se ajuda. Por enquanto cá estão vinte mil réis, desculpe; logo mais virá o médico e eu me encarregarei de mandar aviar as receitas que ele fizer. Adeus.

- Passe bem, respondeu a velha.

E o Coruja, arrastando a sua perna coxa, saiu, prometendo aparecer de vez em quando. Na segunda visita, Inez não se escondeu e foi apertar-lhe a mão, em agradecimento pela parte que lhe tocava, a ela, na "esmola" feita por ele à velha.

- Não foi esmola.. . disse Coruja, abaixando os olhos envergonhado, pelo menos juro que não foi com essa intenção Que fiz aquele pequeno serviço. Hoje por mim, amanhã por ti! Ora essa!

E, assim falando, ele considerava intimamente a grande transformação física que se havia operado em Inez durante os últimos tempos.

Estava uma velha, e feia.

Não parecia mulher de trinta e cinco anos, mas de cinqüenta. Faltavam-lhe dentes; o cabelo lhe encanecera e a pele do rosto lhe estalara em rugas; as mamas, rechupadas, caíam-lhe até a cinta e os braços pareciam, quando se fechavam, espetar com a ponta do cotovelo aquilo que encontrassem.

Além disto, muito emporcalhada pelas duas crianças (a segunda nascera), muito cheia de desmazelo e de privações; o pé sujo e sem meia, o cós do vestido despregado e roto; sempre descansado e indiferente, sempre "Tanto se me dá, como se me dê", sempre a repetir o seu velho provérbio "Homem, mais vale a nossa saúde!" Coruja perguntou-lhe como ia o marido.

- Foi para o hospital, respondeu ela.

- Para o hospital?

- Decerto, pois se lhe deu a fúria!.

- Como a fúria?

(continua...)

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