Por Aluísio Azevedo (1897)
Em público, a Condessa Vésper achava muita graça em tudo isso, e aplaudia a estroinice dos seus libertinos com gargalhadas profissionais, mas em particular, quando se achava a só com a mãe, tinha para esta palavras de filha e pedialhe desculpa daquelas brutalidades. Genoveva, porém, não se consolava e, apesar das suas abstrações de demente, preferiu que a metessem num hospital, e no fim de contas lá morreu, inteiramente desamparada.
Ambrosina chorou nesse dia, mas, para não dar na vista, foi até ao Alcazar, e não deitou luto.
Pouco depois, Gustavo lhe apareceu uma bela manhã mais expansivo, e tomandoa pela cintura, disselhe que tinha arranjado um emprego rendoso, e queria proporlhe uma cousa...
— O que vem a ser?... perguntou ela.
— Oh! uma cousa muito séria, cuja realização depende exclusivamente da resposta que me deres ao que te vou perguntar!
— O que é?
— Dizme francamente, Ambrosina, tu me amas?...
Ambrosina olhou em silêncio para ele, e riuse.
— Não zombes... Responde! Preciso saber se me amas deveras!...
— Mas para quê?...
— Preciso... Responde!
— Dize primeiro para que é...
— Pois bem; ouve: preciso saber se deveras me amas, porque se assim for, quero que despeças todos os teus amantes e fiques somente comigo!
— Ora essa! Para quê?... e por quê?...
— É boa! Porque te adoro! porque preciso de ti para viver! porque não posso continuar a suportar as tuas relações com outros homens! Agora, que já tenho um ordenado, desejo dividilo honestamente contigo, na paz de uma existência confessável, e trabalhar muito! Mas, para a realização de todos esses sonhos, é indispensável primeiro saber se me amas por tal forma que sejas capaz daquele sacrifício...
Ambrosina não respondeu; ficou a cismar.
— Então?... insistiu Gustavo, responde, minha amiga! uma palavra tua darmeá mais coragem que todos os clamores do meu caráter! Lembrate de que por ti esqueci tudo, desvieime do meu futuro, cortei minha carreira, acovardeime, perdime! Vamos! Não me queiras obrigar agora a amaldiçoar o destino que nos aproximou! Fala! Dizme alguma cousa!
— Mas o que queres tu que eu te diga?...
— Quero que me digas se me amas e se és capaz de um sacrifício por esse amor; se tens, finalmente, alguma cousa no coração que te dê ânimo para esquecer todo o passado, abdicar do luxo, privarte dos prazeres ruidosos, e viver só comigo e exclusivamente do nosso amor! Fala! Dize! Lavra a minha sentença!
Ambrosina fez um ar concentrado, foi até ao sofá, assentouse, cruzando as pernas e deixandose cair sobre as almofadas; depois ofereceu a Gustavo um lugar ao pé de si, e disselhe:
— Queres que te fale com toda a franqueza?
— Decerto.
— Olha lá!
— Não quero outra cousa.
— Talvez venhas a arrependerte e nesse caso o melhor é ficarmos calados...
— Não! Fala!
— Bem; vais ouvir então o que nunca imaginaste, nem eu a ninguém revelaria espontaneamente... vais saber de cousas minhas, cuja transcendência nem compreenderás talvez. Vou levantar a lousa de meu coração e consentir que, pela primeira vez alguém penetre nele. Coragem, e escuta!
Gustavo estremeceu da cabeça ao pés, e concentrouse ansioso, com a alma suspensa dos rubros lábios de leoa.
XLIV
VIVA NAPOLEÃO!
— Toda e qualquer mulher, principiou a Condessa Vésper, uma vez viciada pela ociosidade farta e pelo hábito quotidiano da satisfação de todos os seus instintos e de todos os seus caprichos, nunca jamais se poderá contentar com a banal existência de chá com torradas, que lhe ofereça um rapaz pobre e honesto, de roupa bem escovadinha, lenço cheirando a águadecolônia, e algibeiras cheias de máximas filosóficas em prosa e verso...
E, a um gesto interlocutório do amante, disse ela entre parênteses:
— Não tens de que te espantar com esta franqueza! Que Diabo, filho! eu bem te preveni!
E prosseguiu, sem esperar pela réplica:
(continua...)
AZEVEDO, Aluísio. A Condessa Vésper. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=2124 . Acesso em: 8 mar. 2026.