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#Crônicas#Literatura Brasileira

Um passeio pela cidade do Rio de Janeiro

Por Joaquim Manuel de Macedo (1862)

E como para deixar bem patente o seu interesse pela instituição que regenerava, o príncipe procurou chamar para ela o patrocínio e dedicação de alguns indivíduos cujos nomes já se achassem ligados à história do caridoso estabelecimento.

Assim lembrou-se de que um negociante de fazendas da Rua de S. Pedro, negociante chamado José Severino Gesteira, era sobrinho de outro Gesteira que gastara com o antigo seminário cerca de quarenta mil cruzados, e que Joaquim Antônio Insua, morador na Rua do Valongo, fora também benfeitor dos pobres órfãos de S. Joaquim. Mandou-os, pois, chamar a palácio, e declarou-lhes que os nomeava síndicos do seminário de S. Joaquim, e que a eles e outros benfeitores da instituição, que formariam uma junta administrativa e econômica, entregava o patrimônio do seminário, acabando, enfim, por dizer-lhes que queria que se preparasse tudo para que dignamente se fizesse a festa do patriarca, cujo dia se aproximava.

Os homens não tiveram que dizer. Aceitaram sem hesitar, e antes alegremente, a comissão, retirando-se do palácio muito penhorados das maneiras obsequiosas do príncipe regente.

A administração econômica do seminário estava, pois, arranjada e entregue a homens zelosos.

Faltava a direção superior dos estudos e da casa.

O príncipe regente apelou ainda para as recordações do passado do seminário e logo lhe veio à lembrança o nome do cônego Plácido Mendes Carneiro, que tinha já sido reitor e que com tanta solicitude, caridade e inteligência servira, e procedendo com o cônego Plácido como havia procedido com Gesteira e Insua, não encontrou a menor di ficuldade em dar um excelente reitor ao seminário, que imediatamente começou a funcionar.

Foi assim que o príncipe regente deu em muito poucos dias nova vida ao seminário de S. Joaquim. É impossível desconhecer a boa vontade do Sr. D. Pedro. Supôs ele, porém, que bastavam essas medidas para fazer prosperar a instituição, e nisso se enganou. Ou lutava com graves embaraços financeiros, que realmente se fizeram sentir naquela época, e não pôde por isso dar o necessário desenvolvimento nem acudir com recursos pecuniários indispensáveis ao estabelecimento. E em tal caso não há que observar.

Outra vez restabelecido, mas de certo não melhorado na sua organização e condições, o seminário dos pobres órfãos de S. Joaquim continuou como dantes a oferecer aos seus alunos instrução limitadíssima e a arrastar uma vida difícil.

A mão da caridade não lhe trazia meios suficientes para que lhe fosse possível desenvolver-se convenientemente, e a mão do Governo não se estendia para ele a fim de elevá-lo a um grau mais nobre e que mais utilidade oferecesse à juventude, e, portanto ao país.

Um fraco batel não pode resistir a grandes e violentas tempestades, e dez anos depois da reorganização do seminário dos pobres órfãos de S. Joaquim rebentou no seio do país uma borrasca política que pôs tudo em movimento, e determinou em quase tudo mudanças mais ou menos importantes.

Em 1831, na madrugada do dia 7 de abril, o Imperador Sr. D. Pedro I abdicou a coroa em seu Augusto Filho o Sr. D. Pedro II.

A abdicação do primeiro Imperador importou um triunfo completo do Partido Liberal, que lhe fizera decidida e constante oposição desde o dia da dissolução da Constituinte em 1823.

Digo decidida e constante oposição ao Imperador e não ao Governo, porque o Partido Liberal, representado pelos seus deputados nas câmaras, nunca pretendeu governar no primeiro reinado, e até olhava com desconfiança para um ou outro dos seus membros que, acudindo ao convite do monarca, aceitava uma pasta ministerial.

Aponto o fato sem entrar em considerações sobre ele. A ver dade histórica é essa.

O triunfo do Partido Liberal deu incremento a novas idéias. Os pensamentos tomavam outra direção, mas os tumultos e as rusgas que se foram logo sucedendo faziam estremecer os estabelecimentos organizados e as instituições de diversas naturezas.

Os três primeiros anos depois da abdicação foram de grandes lutas, de grandes receios e de grandes dedicações.

Não haverá jamais um historiador imparcial e justo que não reconheça e proclame os serviços relevantíssimos e o patriotismo do Partido Liberal moderado, que salvou a monarquia constitucional e a integridade do império nessa época difícil.

Entre as instituições que mais vacilaram no meio da crise, notava-se o seminário dos pobres órfãos de S. Joaquim que ia em uma decadência completa.

Em dezembro de 1831, o Governo olhou para esse seminário.

Era então ministro do Império o Dr. José Lino Coutinho, deputado pela província da Bahia.

O Dr. Lino Coutinho era um médico de alguma e variada instrução, e muito cedo foi ainda mais político do que médico.

(continua...)

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