Por Joaquim Manuel de Macedo (1845)
— Nada, agora já que principiei hei de acabar. Sim, senhor, como ia dizendo... com que... o que dizia eu?...
— Primo, falaremos disso em outra ocasião.
— Pior é essa, meu primo: já te disse que hei de acabar o que comecei. Estava eu dizendo que tu lhe tens dado esperanças de casamento...
— Sim... e depois?...
— É que aqui não temos depois: o que se há de fazer amanhã, faz-se hoje... o que se promete, cumpre-se.
— Manduca... está-me doendo a cabeça.
— O negócio também não é para tanto; acaba-se tudo com um sim, ou com um não; isto é, com o sim, ficamos arranjados.
— E com o não?...
— Hás de dizer-me o porquê.
— E se eu disser, pode ser?...
— Eu cá não me entendo com pode ser. A mana Rosa já está em idade de casar e é de crer que não tenha vontade de esperar muito tempo. Além disso...
— Além disso o quê?...
— Há um célebre noveleiro que anda espalhando boatos pouco agradáveis...
— Boatos?... perguntou Félix estremecendo de novo.
— Sim: um tal nosso amigo, o Sr. Brás-mimoso, a quem se meteu em cabeça requestar a filha do Sr. Hugo de Mendonça, e que para espantar do lado dela os homens de mérito, que a possam pretender, atreve-se a dizer que ela é uma namoradeira...
Manduca interrompeu-se, ouvindo certo ruído semelhante ao de uma porta que se abre devagar.
— Que é isto? parece que nos escutam... disse Manduca observando.
— Não... não há aqui ninguém... seria o vento... ou alguma outra coisa...
Isto dizendo, Félix olhou para o guarda-roupa e viu uma das portas meia aberta, e pela fresta o olho do homem desconhecido.
— Mas, como ia contando, continuou Manduca, o tal Sr. Brás-mimoso arrojou-se a dizer que tu és um dos apaixonados de D. Honorina...
— É falso... é uma calúnia!
— Ora, isso não fez muito bom cabelo, nem à mana Rosa, nem a mim mesmo; um dia... houve lá em casa o diabo a quatro...
— Meu primo...
— Qual, meu primo, se tu estivesses lá, verias como se pôs a mana Rosa; olha que quando se enfeza é uma víbora; também tirando disso é uma pomba sem fel.
— Está bem... está bem...
— Pois a mana Rosa acreditou tudo quanto lhe quis dizer o Brás-mimoso; pôs a boca no mundo contra a pobre D. Honorina, e te desandou uma descompostura de tirar couro e cabelo; eu, que vi o caso mal parado, protestei, que o negócio havia de acabar bem, e aqui vim hoje, por não ter podido vir há mais tempo.
— Mas... meu primo...
— Espera, primo Félix, devo confessar-te que também tenho interesse na questão: eu estou perdido de amores pela filha do Sr. Hugo de Mendonça, e concebo minhas esperanças de alcançar a posse de seu coração; ideei um plano vastíssimo; estou cabalando para ser deputado provincial, e apenas encartar-me na assembléia e tiver pronunciado o meu primeiro discurso, que há de durar sessão e meia, apresento-me à moça... e tu bem sabes que uma fisionomia de deputado é sempre simpática, por conseqüência... mas que diabo ia eu dizendo?...
— Tu ias dizendo... ias dizendo...
— Ah!... por conseqüência é preciso decidir-te; levarei o teu sim à mana Rosa, e então toda a nossa família trabalhará de acordo comum para o meu casamento.
— Pois bem, primo; fico ciente do que exiges de mim, e pensarei para responder-te. — É que tudo já devia estar pensado há muito tempo.
— Como?...
— Digo que deverias ter pensado suficientemente, quando principiaste a fazer-te de engraçado com a mana Rosa...
— Manduca!
— Ora, vê lá se queres negar a mim mesmo: então a mim, que tantas vezes servi de pau de cabeleira!
— Contudo... quando se trata de um casamento, ninguém se resolve de repente... — Mal vai o negócio, meu primo; e se eu te perguntar qual era, portanto, o teu propósito, quando te punhas a piscar os olhos para mana Rosa?...
— Eu nunca lhe pisquei os olhos.
— Piscavas... e fazias mais; pisavas-lhe no pé por baixo da mesa; e, quando jogavas o diabrete com ela, ficavas sempre burro sem vergonha nenhuma...
— Primo... está bom: já te disse que me decidirei.
— Pois vamos lá... resolve-te.
— Daqui a quinze dias. — Não estou por isso.
— De hoje a oito dias...
— É muito; para esse tempo já a mana Rosa deverá estar casada.
— Isso é uma loucura!
— Loucura é andar desinquietando as filhas dos outros!
— Não posso responder agora; estou doente...
— Nada... já estás muito melhor, vamos ao caso.
— Tenho a cabeça em fogo.
— Não me importa isso; também em fogo anda a cabeça da mana Rosa. Vamos... vamos...
— Pois queres obrigar-me...
— Se tanto for necessário...
— Meu primo!...
— Anda... anda... vamos depressa, que mana Rosa me está esperando.
— Tu és um louco.
— Sim ou não?...
(continua...)
MACEDO, Joaquim Manuel de. O moço loiro. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=2107 . Acesso em: 6 jan. 2026.