Por Aluísio Azevedo (1895)
Ele chegava resmungando e pedia logo alguma coisa para beber; elas negavam, e principiava então a grande luta, cujo desfecho era muita bordoada e uma berraria dos diabos, porque tanto a velha praguejava, como chorava Inez e berrava o pequeno. E o alferes, cada vez mais furioso, ia distribuindo pontapés e murros para a direita e para a esquerda, danado por não encontrar nem um pires ao seu alcance. Oh! aquela mania de quebrar a louça era o que mais enraivecia a velha.
- Mas o grande causador de tudo isto, exclamava ela, é aquela peste daquele Coruja! Se não fosse ele, eu não teria agora de aturar este bêbado! Se não fosse ele Inez não teria casado com semelhante homem e não estaria com um filho às costas e outro no bucho! E naquela casa o Coruja ficou sendo o termo de comparação para tudo o que havia de mal ou feio ou repugnante.
"Ruim como o Coruja! Mais torto que o Coruja! Velhaco que nem o Coruja! Mentiroso nem como o Coruja!"
E, quando Inez fazia recriminações ao marido, este lhe atirava logo em rosto com o nome do outro:
- E, dizia ele, com a sua voz cavernosa de ébrio, você nunca devia ter-se casado senãocom aquele coxo! Estavam mesmo talhados um para o outro! Asno fui eu em meter-me neste inferno e ligar-me a semelhante gentinha! Não solto um espirro, que logo não me queiram tomar contas porque espirrei - é o que se pode chamar "não ser senhor do seu nariz!" Aqui todos querem mandar sobre mim - é mulher, é sogra, é o diabo! Ah! mas um dia cismo deveras e vai tudo raso, faço uma tal estralada que vai tudo de pernas para o ar! Mexam muito comigo e verão!
E, depois de sacudir os braços e repelir do pulmão o ar alcoolizado:
- Caramba! Quero saber se tenho de dar contas de meus atos a safardana algum desta vida!
- Pois então não se casasse!. .. arriscava Inez.
- Ah! Se eu pudesse adivinhar, decerto! antes de tudo a minha liberdade! Agora já nem com o que eu ganho posso contar!
- Quem o ouvisse havia de supor que lhe custamos muita coisa! Olha a graça! Depois do tal casamento é preciso puxar aqui muito mais pela agulha e pelo ferro de engomar! - Ó raio de uma fúria! berrava afinal o Picuinha, se não calas essa boca do diabo, racho-te de meio a meio!
- Também é só para que você presta, casta de um bêbado!
- É! O Coruja havia de prestar para muito mais!
- E talvez que sim!
- Bem, mas basta! Estou farto! Arre!
D. Margarida em geral só se metia nestas polêmicas de Inez e Picuinha, quando a contenda chegava ao auge, e então é que era barulho!
Quase sempre terminava o banzé com a intervenção dos vizinhos, muita vez com a da Policia.
O alferes, porém, longe de tomar caminho, ficava pior de dia para dia.
As duas senhoras já não conseguiam apanhar-lhe dinheiro, senão tirando-lho à força das algibeiras, e isso mesmo quando sobrava algum da pândega.
E que não lhe apresentassem na manhã seguinte a calça engomada e a camisa limpa, que haviam de ver o bom e o bonito!
- Ah! dizia a velha, aquele malvado, cortado em pedacinhos e posto em salmoura, ainda não pagava a metade do mal que nos tem feito!
Este malvado, a quem ela se referia, não era o alferes, era o Coruja.
Uma ocasião, entretanto, depois de uma tremenda carraspana, o alferes foi acometido por um violento ataque de nervos e viu-se obrigado a guardar a cama durante uma semana inteira; apareceram-lhe perturbações cardíacas e ligeiros sintomas de amolecimento cerebral.
O médico declarou que isso tudo era efeito do álcool, e proibiu ao doente que bebesse, que fumasse, e recomendou-lhe que tivesse toda a regularidade na comida, sem o que se arriscava a ficar perdido para sempre.
Picuinha ficou muito impressionado com o que ouviu do médico, e parecia seriamente resolvido a mudar de vida.
Principiou arranjando mês e meio de licença e durante este tempo submeteu-se ao mais rigoroso tratamento; logo, porém, que se achou com a saúde mais garantida, foi aos poucos recaindo nos seus antigos hábitos; e então, de cada bebedeira que apanhava, era--lhe preciso ficar em casa dois, três dias, prostrado, muito irascível, muito nervoso, a beber caldos, sem poder suportar no estômago um bocado de pão.
Por estas crises tornava-se tão insuportável à mulher e à sogra, que as duas já pediam a Deus que o levasse por uma vez.
E as bebedeiras repetiam-se. Então no dia do recebimento do ordenado a coisa era feia; nesse dia escondia-se a louça e preparava-se a casa para o infalível chinfrim.
Mas agora o borracho, receoso já de que as duas mulheres lhe dessem busca às algibeiras, como costumavam fazer, escondia o dinheiro em lugares os mais extravagantes que se podem imaginar; escondia-o dentro da meia, escondia-o no forro da farda e às vezes debaixo dos sovacos.
E, logo que a mulher ou a sogra, depois de uma terrível luta com o alferes, conseguiam descobrir e arrancar-lhe o dinheiro, o homem ficava possesso.
- Ladras! berrava ele quase sem abrir os olhos! ladras! Não posso ter um vintém que não mo roubem!
(continua...)
AZEVEDO, Aluísio Azevedo. O coruja. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=7406 . Acesso em: 18 mar. 2026.