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#Crônicas#Literatura Brasileira

Um passeio pela cidade do Rio de Janeiro

Por Joaquim Manuel de Macedo (1862)

Aquele que deveria ser o natural defensor do seminário dos pobres órfãos de S. Joaquim abandonou-o no momento supremo, e concorreu de sua parte para que se desmantelasse a obra concedida e começada a realizar pelo sacristão-mor da igreja de São Pedro, e desenvolvida pelo Bispo D. frei Antônio de Guadalupe e por seus sucessores, com o auxílio e o concurso de alguns homens benéficos e piedosos.

E sobre um mal veio logo outro.

Em 1818, desapareceram, com o arquivo do seminário de S. Joaquim, os títulos e documentos do respectivo patrimônio.

O ministro conde dos Arcos acudiu em socorro do patrimônio. Está visto que devia mostrar-se algum cuidado com o espólio do seminário morto.

O Dr. José da Silva Lisboa, depois visconde de Cairu, e uma das maiores ilustrações do Brasil, foi encarregado de colher as possíveis informações sobre a origem e história da instituição sacrificada. Recebeu a missão de escrever o necrológio da defunta e fez tudo quanto pôde para desempenhá-lo. Dos dois últimos reitores que ainda viviam, o abade José dos Santos Salgueiros e o cônego Plácido Mendes Carneiro, e dos benfeitores Joaquim Antônio Insua e José Severino Gesteira, obteve algumas notícias e esclarecimentos que lhe serviram para descobrir e recolher os poucos documentos que hoje se possui a respeito do seminário de S. Joaquim.

Há, porém, coincidências e acasos singulares que o povo não deixa passar despercebidos.

Era notável e quase proverbial o constante e feliz estado sanitário do seminário de S. Joaquim. Os reitores, os seminaristas e toda a gente da casa gozavam sempre de excelente saúde, e tornara-se raro o caso de alguma enfermidade.

Observa-se mesmo que durante a terrível zamperini ninguém adoecera no seminário de S. Joaquim, e ainda mais notável observação se fizera, quando reinou a não menos fatal epidemia que recebera a alcunha de carcunda, e que tantas vidas ceifara no Rio de Janeiro. Porque, habitando então dentro do seminário cerca de oitenta pessoas, foram quase todas atacadas do mal e não houve uma só que sucumbisse a ele.

Passou o seminário a ser quartel de soldados, e começou logo entre estes a colheita da morte.

As moléstias se multiplicaram e as vítimas foram numerosas, entrando na conta delas um oficial e o capelão do corpo aquartelado.

E além das enfermidades, ocorreu também um desastre.

Diz uma tradição que um grande muro que havia, como hoje há, para o lado da Rua da Imperatriz, rua que então se chamava do Valongo, veio a cair um dia inesperadamente, e esmagou embaixo de suas pedras um menino que ia passando.

Tudo isso podia muito naturalmente acontecer. O povo, porém, que é crédulo, e que se deixa dominar por idéias que a razão nem sempre aceita e explica, acreditou que o decreto de 5 de janeiro de 1818 não tinha sido nem podia ser abençoado por Deus, que é pai dos órfãos e de todos os pobres, e que, portanto, condenava a injustiça e a violência feita aos órfãos pobres de S. Joaquim.

III

A extinção do seminário dos pobres órfãos de S. Joaquim era um fato consumado desde janeiro de 1818. O poder absoluto havia arrancado aos pobres órfãos uma doação feita pela caridade de não poucos benfeitores, e não se admitia nesse tempo a menor oposição ao – quero e mando – do Governo, que assim mostrava desprezar o direito de propriedade.

Entretanto, dois anos e quatro meses tinham apenas corrido e já o Governo corrigia arrependido o erro que cometera, revogando todas as disposições do decreto de 5 de janeiro de 1818.

Ignoro completamente as razões que levaram o Governo a dar semelhante passo; e como é de crer que em dois anos e quatro meses tivessem arrefecido as queixas dos benfeitores da instituição, se é que estes por ventura ousaram alguma vez murmurar, devo supor que a medida fosse aconselhada pelo reconhecimento do direito que assistia aos órfãos pobres de S. Joaquim, ou também pelo natural desejo que tinha o novo Governo do Brasil de recomendar-se à estima da população.

Porque é preciso não esquecer que as datas do primeiro e do segundo decreto nos estão indicando que o de 5 de janeiro de 1818 pertence ao Sr. D. João VI, Rei de Portugal, Brasil e Algarve, e o outro, que foi de 19 de maio de 1821, pertence ao Sr. D. Pedro, então príncipe regente e lugar-tenente do rei seu pai no Brasil.

Pode ser que não tenha importância ou significação alguma polí tica o fato de ter o Sr. D. Pedro, príncipe regente, revogado aquela medida tomada pelo Governo do rei seu pai. Sempre é bom, porém, conservar de memória essas datas, que recordam duas épocas bem distintas e bem diversas em idéias, em aspirações e em esperanças, dúvidas e sonhos de futuro.

O certo é, em todo o caso que, logo depois da retirada do Sr. D. João VI para Portugal, o Sr. D. Pedro, por decreto da data já marcada, mandou restabelecer o seminário dos pobres órfãos de S. Joaquim no mesmo pé em que dantes se achava, ordenando igualmente que o patrimônio, de que estava de posse o seminário de S. José, revertesse para aquele, como era de direito.

(continua...)

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