Por José de Alencar (1857)
A chama avermelhada da fogueira às vezes oscilava ao sopro do vento, e estendendo-se pelo terreiro ia iluminar a alguma distância com o seu frouxo clarão o vulto de Loredano atado ao poste sobre a pira de lenha.
Os aventureiros tinham resolvido demorar o suplício e dar tempo a que o frade se arrependese dos seus crimes e se decidisse a morrer como cristão, humilde e penitente; por isso deixaram-lhe a noite para refletir.
Talvez entrasse também nessa resolução um requinte de maldade e de vingança; julgando o italiano a verdadeira causa da posição em que estavam colocados, os seus companheiros o odiavam e queriam prolongar o seu sofrimento como uma reparação do mal que lhes tinha feito.
Assim, de vez em quando algum deles se erguia, e chegando-se ao frade, exprobrava-lhe a sua perversidade e cobria-o de impropérios e de injúrias. Loredano estorcia-se de raiva, mas não proferia uma palavra, porque os seus algozes o tinham ameaçado de cortar-lhe a língua.
Aires Gomes veio chamar os aventureiros da parte de D. Antônio de Mariz; todos se apressaram em obedecer, e pouco depois entraram na sala onde estava toda a família. Tratava-se de uma sortida com o fim de procurar víveres que pudessem alimentar os habitantes da casa, até que D. Diogo tivesse tempo de chegar com o socorro que tinha ido procurar. D. Antônio de Mariz reservava dez homens para defender-se; os outros partiriam com Álvaro; se fossem felizes, havia ainda uma esperança de salvação; de fossem malsucedidos, uns e outros, os que fossem e os que ficassem morreriam como cristãos e portugueses.
Imediatamente a expedição preparou-se, a favorecida pelo silêncio da noite partiu e interno-se pela floresta; devia afastar-se sem ser percebida pelos Aimorés, e procurar pelas vizinhanças fazer uma ampla provisão de alimentos.
Durante a primeira hora que sucedeu à partida, todos os que ficaram, com o ouvido atento escutaram, temendo ouvir a cada momento o estrondo de tiros que anunciasse um combate entre os aventureiros e os índios. Tudo conservou-se em silêncio; e uma esperança, bem que vaga e tênue, veio pousar nesses corações quebrados por tantos sofrimentos e tantas angústias.
A noite passou-se tranqüilamente; nada indicava que a casa estivesse cercada por um inimigo tão terrível como os Aimorés.
D. Antônio admirava-se que os selvagens, depois do ataque da manhã, se conservassem tranqüilos no seu campo, e não tivessem investido a habitação uma só vez. Passou-lhe pelo espírito a idéia de que se tivessem retirado com a perda de alguns dos seus principais guerreiros; mas ele conhecia de há muito o espírito vingativo e a tenacidade dessa raça para admitir semelhante suposição.
Cecília recostou-se num sofá, e alquebrada de fadiga conseguiu adormecer apesar das idéias tristes e das inquietações que a agitavam. Isabel, com o coração cerrado por um terrível pressentimento, lembrava-se de Álvaro, e acompanhava-o de longe na sua perigosa expedição, misturando as suas preces com as palavras ardentes do seu amor.
Assim passou-se esta noite; a primeira, depois de três dias, em que a família de D. Antônio de Mariz pôde gozar alguns momentos de sossego.
De vez em quando o fidalgo chegando à janela via ao longe, perto do rio, brilharem os fogos do campo dos Aimorés; mas uma calma profunda reinava em toda aquela planície. Nem mesmo se ouvia o eco enfraquecido de uma dessas cantigas monótonas com que os selvagens costumam à noite acompanhar o embalançar de sua rede de palha; apenas o sussurrar do vento nas folhas, a queda da água sobre as pedras, e o grito do oitibó.
Contemplando a solidão, o fidalgo insensivelmente voltava a essa esperança que há pouco sorrira, e que o seu espírito tinha repelido como uma simples ilusão. Tudo com efeito parecia indicar que os selvagens haviam abandonado o seu campo, deixando nele apenas os fogos que haviam servido para esclarecer os seus preparativos de partida.
Para quem conhecia, como D. Antônio, os costumes desses povos bárbaros, para quem sabia quanto era ativa, agitada, ruidosa esta existência nômada, o silêncio em que estava sepultada a margem do rio era um sinal certo de que os Aimorés já ali não estavam. Contudo o fidalgo, demasiadamente prudente para se fiar em aparências, recomendara aos seus homens que redobrassem de vigilância para evitar alguma surpresa.
Talvez que aquele sossego e aquela serenidade fossem apenas uma dessas calmas sinistras que preludiam as grandes tempestades, e durante as quais os elementos parecem concentrar as suas forças para entrarem nessa luta espantosa que tem por campo de batalha o espaço e o infinito.
As horas correram silenciosamente; a viuvinha cantou pela primeira vez; e a luz branca da alvorada veio empalidecer as sombras da noite.
(continua...)
ALENCAR, José de. O Guarani. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1842 . Acesso em: 26 jan. 2026.