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#Romances#Literatura Brasileira

Os Dois Amores

Por Joaquim Manuel de Macedo (1848)

– Oh! é isso, meu pai, é isso mesmo. Fui desde criança uma louca, cheia de presunção e vaidade, a mais pequena contrariedade ofendia meu orgulho; um homem que deixasse de queimar incenso a meus pés me levava ao desespero; e depois, envergonhada de meus sentimentos, de minhas puerilidades, eu escondia a causa de minhas penas a meu pai, que chorava julgando-me desgraçada, quando eu era somente uma pobre louca.

– E mais nada? perguntou Anacleto.

– Muito mais, meu pai, muito mais; porém tudo se reduz pouco mais ou menos a isso.

– E ultimamente?

– Ultimamente eu era, eu sou louca como dantes; eu sou criança ainda hoje, meu pai.

E com um sorrir gracioso Mariana continuou:

– Devo confessá-lo?... pois bem: eu sou ciumenta, meu pai, perdidamente ciumenta. Estou para casar-me, e se Henrique olha duas vezes para uma senhora, faz-me estar triste um dia inteiro; se conversa com prazer com outra, sou capaz de chorar duas horas. Eu não disse já que era louca?

– E mais nada? perguntou Anacleto de novo.

– Pois o que mais, meu pai?

– Minha filha, tu não queres ainda confiar-me os teus pesares; não tens piedade deste pobre velho, que tanto te ama!... paciência!

Outra vez se encheram de lágrimas os olhos de Mariana.

– Choras ainda?... eis aí...

– Meu pai! eu lhe tenho feito sofrer muito; ainda hoje, ainda agora acaba de chorar por minha causa. Pois bem; eu lhe prometo que amanhã, que nunca mais me há de ver pesarosa.

Anacleto estremeceu todo e disse:

– Mariana!...

– O que tem, meu pai?

– O que acabas de dizer pode-se entender de dois modos: é um pensamento que pertence tanto à vida como à morte, e talvez que ainda mais a esta última.

– Morte!... disse a viúva rindo-se; pensar em morte uma moça que está em vésperas de casar-se?

– Ah! Mariana, quem te poderá compreender suficientemente?!

A viúva apertou a mão de seu pai entre as suas e perguntou:

– Meu pai, encomendou as flores?

– Encomendei, respondeu o velho suspirando.

– Eu quero que o meu vestido de casamento esteja pronto amanhã.

– Está bem.

– Meu adereço de brilhantes?

– Também amanhã o terás.

– Como meu pai me ama! exclamou Mariana abraçando o velho.

Anacleto apertou sua filha contra o coração sem dizer palavra.

O velho sofria muito; apesar de todos os esforços que fazia a viúva, o olhar penetrante de seu pai lia-lhe a mentira no rosto.

Ah!... se ele pudesse ler também o pensamento sinistro e infernal que pairava no ânimo de Mariana; se ele adivinhasse que debaixo daquele rosto tão belo e tão risonho, daqueles olhos tão ardentes e dentro daquela cabeça tão graciosa estava a idéia da morte... o suicídio!...

– Mas, disse Mariana, agora é que eu reparo... meu pai está vestido para sair.

– Sim; lembrei-me, apenas há uma hora, que faz hoje anos um de meus velhos amigos, e vou jantar com ele; vinha por isso dizer-te adeus.

– Não pretende voltar cedo?

– De ordinário a gente se demora mais nestes dias...

– Então a que horas?

– Às dez da noite, pouco mais ou menos.

Apesar seu, Mariana sentiu que lhe iam faltar as forças... tornou-se pálida e segurou-se a uma cadeira.

Infelizmente escapou isso aos olhos de Anacleto, que se dispunha já a sair.

– Meu pai, disse a viúva com voz muito comovida e suspendendo o velho, que já se achava na porta: meu pai, prometi-lhe que nunca mais me havia de ver pesarosa... pois bem; abençoe de coração a sua filha.

Anacleto voltou-se com os olhos úmidos, e abençoou Mariana. Depois saiu.

– Abençoou-me pela última vez! murmurou surdamente a viúva. E ficou estática... pasma... aterrada. Tinha a morte na alma.

CAPÍTULO XLII

OS REMORSOS

O CRIME mesmo, quando parece triunfar ou poder fugir ao castigo dos homens, envolto nas sombras dos mistérios, é ainda assim mil vezes mais desgraçado do que a inocência, que sucumbe.

A inocência é sempre bela, sempre pura, sempre anjo aos olhos de Deus, que vê tudo, que vê o bem e o mal. A inocência espezinhada pelos homens, ou com nobreza os despreza, ou chora doída de suas injustiças; mas seu coração se volta para o céu, e suas esperanças voam para a eternidade. Lá em cima o juízo dos homens é nada.

A inocência é a virgem encantadora amada por Deus. Ele lhe paga cada lágrima com um triunfo. A glória que a espera é tanto mais subida quanto mais doloroso foi o seu martírio cá embaixo.

E o crime?...

O crime é sempre duas vezes formidavelmente castigado, sem contar com as penas e tormentos a que o podem condenar os homens.

É castigado uma vez cá em baixo, e outras lá em cima. A sentença não tem apelação, nem na terra nem na eternidade; porque quem sentencia é o juízo seguro, justo e severo de Deus.

Os castigos inventados pelos homens são nada. A que se reduzem esses castigos?... aos tormentos físicos, à dor. Tornam-se ineficazes, ou por momentâneos, ou porque o hábito de os sofrer os nulifica.

(continua...)

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