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#Romances#Literatura Brasileira

Numa e a Ninfa

Por Lima Barreto (1911)

Convidei todas as altas autoridades e com quem mais instei que viesse foi com o Bonifácio. era nele que eu depositava toda a minha esperança.

No dia marcado, muito solene e convencido, dentro de uma enorme sobrecasaca, lá estava eu à espera das autoridades.

Não tardaram a chegar e, entre Bonifácio e o Presidente, dirigi-me para o salão em que o quadro estava exposto. Logo que o viu, Bonifácio exclamou:

— É maravilhoso!

O Presidente confirmou:

— É extraordinário!

O Ministro do Interior alongou-se mais:

— É de uma originalidade flagrante.

O Ministro das Belas Artes que até aí se mostrava reservado, não se conteve:

— É uma obra prima!

Os outros convidados não oficiais vieram chegando e, vendo o entusiasmo do grupo “executivo”, abundaram nas mesmas considerações.

A Viscondessa de Cinco Pontes veio cumprimentar-me e disse-me:

— Pode o senhor ficar certo que pintou o quadro mais original do nosso século.

Não ficaram aí os cumprimentos e elogios, que foram muitos, mas da maioria dos quais não me recordo mais.

Naquele dia, o sucesso foi absoluto e, nos que se seguiram, não diminuiu muito. Os jornais, em geral, me fizeram elogios, senão rasgados, ao menos gabaram a minha concepção ousada, fazendo restrições sobre a minha técnica; O meu antigo contendor passou-me um deboche em regra, mas a sua opinião não pesou, como não pesaram as dos pequenos jornais e revistas em que fui debochado a valer.

Em resumo: o julgamento de Bonifácio foi vitorioso e a minha extravagante borra teve as honras de obra-prima.

Foram tais os elogios que eu mesmo me convenci de que era um grande pintor e tinha uma vocação perfeitamente “vinceana” que até então não tinha sabido aproveitar.

Tratei de agradecer às pessoa eminentes a honra que me tinham dado e comecei pelo Bonifácio.

— Oh, caro Bogoloff — disse-me ele quando me viu - você tem todas as habilidades. O Presidente gostou muito de seu quadro, achou-o original, e falou mesmo em adquiri-lo para a Pinacoteca Nacional. Você quanto quer por ele?

Pensei um instante e respondi com modéstia:

— Quero dez contos.

— Peça vinte, homem. — Vai lá.

E daí a dias tinha eu vendido por tal quantia a minha maravilhosa extravagância ao Estado, para ensinamento e edificação dos pósteros.

CAPÍTULO IV

FUI UM MOMENTO SHERLOCK HOLMES

(A primeira lauda dos manuscritos deste capítulo não foi localizada)

Graças a ele, vim a conhecer muita coisa dos bastidores da política e tive ocasião de incomodá-lo em pequenos obséquios. Após ter pintado a batalha da Salamina, cujo sucesso excedeu à minha expectativa, resolvi descansar e gastar com parcimônia o dinheiro que o quadro me rendera. Vivi retirado muitos meses e pouco apareci nos lugares públicos e quase nenhuma visita fiz.

Aluguei nos arredores da cidade uma chácara e lá passei o dia a plantar couves.

Certo dia, estando deveras aborrecido, tomei a resolução de vir até a cidade.

Desembarquei cedo e como tivesse fome, procurei um restaurante.

Ao entrar, encontrei já sentado à mesa o deputado Numa que me chamou para junto de si. Antes de mais nada, ele me perguntou:

— Não vais à manifestação de Sofônias?

— Quando é? — Amanhã.

Disse-lhe que não; Numa, porém, insistiu, expondo curiosas doutrinas com abundância de fatos concretos, doutrinas que eu resumo aqui para edificação dos jovens que se destinam à carreira política. Mais ou menos, ele me disse, as belezas que se seguem.



(continua...)

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