Por Aluísio Azevedo (1897)
— Não a desampare, por amor de Deus!... dizia ela, segurandolhe as mãos; faça com que mãezinha vá para junto de mim o mais depressa possível!... Se soubesse como dói na consciência a ter deixado chegar àquele estado!... O senhor é a única pessoa envolvida nisto... Não me abandone, que eu morreria de desgostos! Mãe, só temos uma na vida! lembrese, meu amigo, que é uma filha que intercede aflita pela salvação de sua própria mãe!
— Não me descuidarei, descanse! balbuciou ele, um pouco perturbado.
— Ela prosseguiu:
— A ninguém, a não ser ao senhor, seria eu capaz de falar deste modo... Veja como correm as lágrimas dos olhos!
E levou às suas faces as mãos de Gustavo, demorandoas depois contra os lábios, como para lhe dar, com um ósculo de gratidão, humilde cópia de quanto a penhoravam aqueles serviços.
— Mas que profunda confiança me inspira a sua pessoa!... segredou ela, acarinhandolhe as mãos com os lábios. Nunca fui assim, creia, com mais ninguém, nem mesmo com, meu marido! Oh! se o senhor me abandonasse neste transe, nem sei o que seria de mim!
— Não tenha receio
— Se for preciso gastar, não meça despesas... olhe! o melhor será levar já algum dinheiro... Eu vim prevenida!
— Não, não! Dirlheei ao depois o que gastar...
— Obrigada! obrigada! Sei que o senhor vai ter incômodos e infinitos aborrecimentos, mas neste mundo devemos socorrernos uns aos outros, não é verdade? Oh! como seria eu feliz se algum dia lhe pudesse ser útil em qualquer cousa! Socorra minha mãe, e pode dispor de tudo que possuo! Disponha de mim! toda eu estou sua da ponta dos pés à ponta dos cabelos!
— Muito agradecido, mas que exagero! Não vejo motivo para tanto!
E Gustavo, sentindo agitarselhe o sangue, afastouse discretamente do corpo de Ambrosina, que ao dele se havia ligado inteiramente.
— Ah! chegamos! exclamou o perseguido com um suspiro de desabafo.
O carro havia com efeito parado à porta da Condessa.
— Não se vá... disse esta ao moço, despedindo o cocheiro. Sintome tão abalada pela comoção, que receio ficar sozinha... Façame um pouco de companhia à ceia... É um favor que lhe peço. Juro que não o deterei por muito tempo!...
Gustavo esquivavase com desculpas e agradecimentos, sentindose quase ridículo.
Ela o prendeu pelos braços, puxandoo para dentro do corredor. E, tomandolhe a cabeça entre as mãos, disselhe com o rosto encostado ao dele:
— Não sejas tolo, meu amor!
E com violento beijo, em que os dentes dos dois se chocaram, Ambrosina injetoulhe no sangue o alucinante morbus da sua venérica luxúria.
XLIII
ENTRE GARRAS
E a partir de tal momento, Gustavo nunca mais se possuiu.
O leitor, que já sabe de quanto era capaz Ambrosina, poderá facilmente imaginar o que não teria feito esse formoso demônio para captar o amor do impressionável moço, e o modo pelo qual não ficaria este, de corpo e alma, seu escravo.
Arrastado a princípio só pelos sentidos, depois atraído pelo sentimento e pelo hábito, pouco a pouco se foi o mísero convertendo em amant au coeur da Condessa Vésper.
E tal situação lhe criava sérias dificuldades, porque, embora se recusasse Ambrosina aceitar das mãos dele qualquer dádiva de valor, impunhalhe todavia a dignidade, ainda não vencida de todo, contrariar freqüentemente a generosidade da amante, o que para o infeliz representava verdadeiro sacrifício.
D. Joana, a cujo cargo se achava Estela havia já cinco meses, embalde tentara chamar de novo o hóspede ao bom caminho. Gustavo, além de não realizar o casamento com a rapariga no prazo combinado, parecia disposto a sacrificar a pobre senhora, não pagando as atrasadas contas do que devia. Ela, por sua vez endividada com os fornecedores, revoltouse afinal e declarou que, em atenção às circunstâncias, guardaria a órfã consigo, mas quanto ao outro, que não estava absolutamente disposta a continuar a darlhe casa e comida, antes da solvência dos seus próprios compromissos.
(continua...)
AZEVEDO, Aluísio. A Condessa Vésper. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=2124 . Acesso em: 8 mar. 2026.