Por Joaquim Manuel de Macedo (1848)
“Senhora, um acontecimento que pouco lhe importará saber qual seja, porque somente a mim diz respeito, acaba de obrigar-me a modificar minhas disposições. A escritura de meu casamento com a senhora sua sobrinha deverá impreterivelmente ser hoje assinada Às cinco horas da tarde terei o prazer de ir ao “Céu cor-de-rosa”, levando comigo a escritura de que falo, e a carta, que com toda probabilidade espero deixar hoje em suas mãos. Tenho a honra de assinar-me, etc. – Salustiano”.
Mariana ao princípio ficou petrificada, pálida e imóvel como um cadáver; depois com o rosto contraído, os olhos espantados e o corpo convulso, causaria piedade ao coração mais duro.
Era a sentença final que a mísera acabava de ler... O que lhe restava?... O que lhe cumpria fazer?...
Mas passada uma hora, a graciosa cabeça daquela encantadora mulher ergueuse bela e orgulhosa; brilharam seus olhos com ardor imenso, suas faces se animaram com o rubor da vida, e um sorriso que se não podia bem traduzir, que tinha alguma coisa do rir terrível do desespero e do rir sossegado de um mártir cristão, raiou em seus lábios grossos e voluptuosos, deixando alvejar seus lindíssimos dentes.
Animava-a a idéia um novo crime: ela se exaltava com um pensamento sinistro.
– Vencerei... a meu modo!... murmurou ela.
E depois, por entre uma risada nervosa, e como filha da loucura, acrescentou:
– É um tigre!... é um tigre que pretende devorar-me!... livrarei minha alma de suas garras.. . deixar-lhe-ei o meu corpo... ah! sim!... o tigre que se farte no meu cadáver!...
A infanticida meditava no suicídio!...
Porém ela sentiu rumor. Ouviu os passos compassados de alguém que vinha subindo a escada: eram os passos de um velho.
Mariana correu a receber seu pai.
– Meu pai!... exclamou.
O velho recuou dois passos, como sobressaltado, depois cruzou as mãos e disse:
– Graças a Deus!
– Por que, senhor?...
– Porque enfim te vejo alegre, Mariana.
Foi com tão viva expressão de prazer que aquele bom velho agradeceu ao céu a alegria que estava brilhando no rosto de sua filha, que ela mesma não pôde resistir à dor que lhe causava a mentira que iludia seu pai.
Os olhos de Mariana arrasaram-se de água: a mísera começou a soluçar desabridamente, de joelhos, abraçada com as pernas do sensível velho.
– Minha filha! minha querida filha!... que é isto?... bradou então ele; por acaso enganei-me eu?... és sempre incompreensivelmente desgraçada?...
Mariana chorava ainda mais.
– Filha da minha alma, continuou Anacleto chorando também, fala! Derrama
no meu coração os teus pesares... fala, pelo amor de Deus! Se tens um segredo, onde acharás para esse arcano mais bem cerrado túmulo do que o coração de teu pai?... Oh! fala!... A alma de um pai se abre piedosa às penas que te dilaceram, fala! se um tal silêncio continua, e continuam essas lágrimas e esse constante sofrer, cuja causa me escondes, eu não posso resistir mais... eu morro, decerto!
– Senhor... balbuciou a mísera.
– Ah! é porque tu não sabes o que é ser pai, Mariana; é porque ignoras que não há punhal que rasgue mais dolorosamente as entranhas de um pai do que as lágrimas de uma querida filha!... Fala, meu anjo, fala, meu amor, fala, minha filha!... Por que choras?... Tens porventura cometido uma falta?... A alma de teu pai é grande para te perdoar!... Ofenderam-te?... Fala, e meu trêmulo braço readquirirá as perdidas forças para vingar-te... O que tens? Vê que o teu silêncio faz mal a ti mesma... Lembra-te que esse mistério em que envolves a tua dor pode dar lugar a que alguém suspeite...
Com a rapidez do relâmpago desapareceram todos os sinais de dor ou de enternecimento, que em Mariana acabavam de mostrar-se. Tinha despertado a vaidade... a mentira.
A viúva ergueu-se.
– Então, minha filha?
– Nada sofro, meu pai.
– Mas que contradição é essa?... Chego e acho-te risonha; dou graças a Deus pelo teu contentamento, e cais a meus pés desfazendo-te em pranto; chorando também por minha vez, peço-te que fales; e tu te ergues altiva, com os olhos enxutos, e me dizes que nada sofres?! Como explicas isto?
A viúva pensou um momento, e depois respondeu tão sossegadamente como se fora a própria verdade que nos seus lábios falasse:
– Meu pai, disse ela, tenho-lhe causado imensos pesares...
– Não nos lembremos das dores passadas. O que eu quero saber é simples: o que te atormenta hoje?
– Remorsos.
– Remorsos?! exclamou Anacleto.
– Sim, meu pai; remorsos dos desgostos que lhe tenho causado.
O velho fitou por alguns instantes os olhos no rosto de sua filha; depois, sacudindo tristemente a cabeça, disse:
– Não é isso.
(continua...)
MACEDO, Joaquim Manuel de. Os Dois Amores. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=2158 . Acesso em: 6 jan. 2026.