Por Aluísio Azevedo (1897)
— Oh! Eu lhe serei muito grata!... Conto então com o senhor à meianoite?
— Sem falta.
— Pois bem, à meianoite o espero aqui mesmo. Já me encontrará pronta para o acompanhar.
— Nesse caso, até logo, disse ele.
— Adeus, meu amigo.
E Ambrosina estendeu a fronte, que Gustavo não beijou.
À hora predileta, já ela com efeito, entocada num carro de praça, esperava pelo rapaz defronte da porta de casa. E dentro em pouco chegavam os dois à miserável residência da viúva do comendador Moscoso.
Graças a Gustavo, a lavadeira tinha sido antecipadamente prevenida daquela misteriosa visita.
Todo o cortiço ressonava, prostrado pela grossa labutação desse dia.
Ambrosina, vestida de negro e embiocada em mantilha entrou na estalagem pelo braço do poeta.
Ia pressurosa e confusa, mas não era a mãe, coitada desta! quem a preocupava nesse instante, era o enigmático rapazola que lhe dava o braço. Apesar de toda a sua diabólica perspicácia, não tinha ainda a presumida conseguido formar seguro juízo sobre que espécie de animal vinha a ser aquele estranho escrivinhador de novelas, que a tratava por cima do ombro e com um sorriso tão irritante quão pouco amáveis eram as suas palavras.
Ah! que Gustavo lhe preocupava o espírito e a trazia intrigada desde aquele seu primeiro olhar à porta do Arnaud, disso já não havia dúvida. Ambrosina a princípio procurou, não obstante, explicar o fato por um simples fenômeno de antipatia, mas depois teve de abrir mão dessa hipótese, à vista do insólito abalo nela produzido pelo espinhoso bilhete do estouvado na noite dos seus maiores triunfos, e agora pela quase agradável impressão que lhe causara a generosa atitude do boêmio com respeito à pobre velha, de quem ela era filha e mal se lembrava.
Sim senhor! dizia consigo a loureira; podia ele gabarse de ter maravilhosamente comovido o belo e frio mármore de que era talhada a Condessa Vésper!
— Qual mármore! Os trinta anos de uma mulher, voluptuosa e materia1ista como aquela, jamais chegam desacompanhados de fundas modificações no seu temperamento. Ambrosina galgara à curvilínea idade em que a mulher perdida faz grande questão dos seus momentos de amor exofício e, como para se desforrar dos intermináveis tédios do amor profissional, escolhe detidamente, gulosamente, contemplando, estudando em concentrado silêncio de conhecedor, o tenro e apetitoso eleito dos seus dispépticos sentidos, para afinal o saborear em remancho, reservada e grave, plenitude de uma delícia cevada e egoística. E Gustavo tinha então de vinte e quatro a vinte e cinco anos, fortes, sadios e bem aparelhados.
Essa é que era a verdade. Não se vá porém supor que, por ter já trinta anos, estivesse Ambrosina menos bela; ao contrário, o que perdera em graça juvenil ganhara em femínea plástica atingindo a esse glorioso apogeu da carne, que cresce precede na sua órbita fatal ao primeiro pungir do declínio, mas que naquele brilhante e rápido fastígio atinge ao mais alto grau da perfeição da forma.
Será preciso dizer que tão inesperada resistência por parte do mocetão, excitou, naqueles zodiacais e formosos trinta anos, a flama acesa pelo sensual capricho do momento? e que, ao terminar a visita, já se sentia a caprichosa perfeitamente resolvida a capturar o revesso boêmio, custasse o que custasse?
A visita foi breve, mas em compensação muito penosa para a rapariga. Não contava esta encontrar a mãe em tão negro e repulsivo estado de miséria; as acres fezes da existência tinham de todo corroído o que porventura ainda restasse de coragem na pobre vencida, cuja derradeira aparência de energia só na aguardente encontrava, agora por último, uns vislumbres de muleta. A desgraçada, quando logo pela manhã não bebia ó seu trago de cana, desabava para o resto do dia numa tristeza que a punha cismadora e demente.
Ao ver entrar a filha no quarto, ela começou a chorar. Ambrosina correu a beijarlhe a mão, e com um gesto pediu a Gustavo que se afastasse.
O rapaz saiu, cerrando sobre si a porta, e, durante a abafada conversa das duas mulheres, ouviase o som dos passos dele, que lá fora passeava, à espera, por entre a récua de casinhas do cortiço.
Ficou resolvido que Genoveva, com um nome suposto iria para a companhia da Condessa Vésper. Não foi sem repugnância que a infeliz, apesar de seu geral desfibramento, aceitou semelhante derivativo da miséria, mas esse pobres restos de dignidade não conseguiram vir à tona do lodo em que a triste mãe se aniquilava. Iria viver das migalhas dos bródios pagos pelos amantes da filha, e bem compreendia ela, coitada! o alcance de tão extremo recurso, porém que remédio, se lhe faltava agora o ânimo para tudo, até para deixar de existir?
Já em caminho de casa, Ambrosina, fazendose muito íntima de Gustavo e sem largar da boca o nome da mãe, encarregou o rapaz com respeito a esta de várias delicadas incumbências.
(continua...)
AZEVEDO, Aluísio. A Condessa Vésper. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=2124 . Acesso em: 8 mar. 2026.