Por Joaquim Manuel de Macedo (1862)
Todos os dias rezavam no coro da igreja o ofício de nove lições, como os sacerdotes, isto é, desde matinas até noa, de manhã, e de vésperas até completas, à tarde. Este trabalho foi dispensado pelo Bispo S. José Caetano da Silva Coutinho, ficando, porém, os seminaristas sempre obrigados a recitar o ofício em todos domingos e dias-santos. Nos dias feriados cantavam a Stella Coeli, dava a oração um diácono e eles ouviam missa. À noite, iam para a capela do seminário às sete horas e meia, lá rezavam o terço de N. Senhora, e voltavam em comunidade para o refeitório, onde ceavam sob a presidência do vice-reitor; e enfim, depois de darem graças a Deus e de recitarem o salmo Miserere, retiravam-se, indo cada um para o seu cubículo.
Além destes exercícios de piedade, tinham os seminaristas durante o ano algumas grandes solenidades religiosas, que se celebravam na igreja do seminário, e em que eles tomavam uma parte muito notável.
A festa do patriarca S. Joaquim era feita com toda a pompa e precedida de novenas, nas quais pregavam os seminaristas que o reitor escolhia dentre aqueles que lhe pareciam mais capazes de desempenhar esse serviço; e é escusado dizer que acudia um numeroso concurso para ouvir e apreciar os pregadores imberbes, alguns dos quais criaram uma fama que não desmentiram depois. Na véspera da festa, havia matinas cantadas pelos seminaristas.
Notava-se com interesse que apareciam nesta solenidade alguns sacerdotes que vinham espontaneamente pagar ainda um tributo de amor e de saudade ao seminário, de que eram filhos.
A festa do patriarca S. Joaquim era, sem dúvida, a principal.
Celebravam-se, porém, ainda mais duas, a de N. S. das Dores e a de S. José, cujos festeiros eram sempre seminaristas admitindo-se, no entanto, o concurso de devotos de fora do seminário, fazendo-se para esse fim eleição anual de juízes, procuradores, etc.
Vou agora mostrar, com a simples exposição de outros costumes e usos observados no seminário de S. Joaquim, como os pobres órfãos, os alunos chamados não contribuintes ou gratuitos, eram, de fato, contribuintes pouco mais ou menos como os outros.
Os seminaristas tinham por obrigação varrer a igreja do seminário e cuidar da sacristia, trazendo-as sempre no mais completo asseio, e dividiam entre si este serviço, fazendo semanas, de modo que cumprissem todos o mesmo dever.
Até aqui a regra era geral. Aparece, porém, em seguida, uma exceção que vai tornar, como disse, os seminaristas, gratuitos em nome, contribuintes de fato.
Os alunos pobres do seminário de S. Joaquim faziam semanas de coros, indo dois para o coro de S. Pedro, dois para o da Candelária e dois para o da Misericórdia, recebendo por esse serviço o seminário uma quantia anual.
Costumavam também sair em comunidade para acompanhar enterros, porque nos testamentos deixados por alguns finados achava-se a cláusula de uma esmola de quatrocentos, duzentos e cem mil-réis, no mínimo, legada aos pobres órfãos de S. Joaquim, com a obrigação de irem estes acompanhar ao último jazigo os restos mortais dos legatários, entoando na rua o salmo Miserere, e na igreja, depois da encomendação, um bem garganteado Liberame, dando o reitor do seminário a oração.
Ainda alguns devotos, mandando cantar missas por qualquer intenção, entendiam-se às vezes com o reitor do seminário de S. Joaquim, e lá iam os seminaristas entoar o seu cantochão mediante uma esmola mais ou menos elevada, que pertencia sempre ao estabelecimento.
Segue-se, portanto, que não podia haver gratuitos menos onerosos do que os pobres órfãos de S. Joaquim, que durante muito tempo andaram com sapatos e cintos diferentes dos que traziam seus colegas ricos, e nem ao menos comiam com eles toucinho à mesma mesa, e tinham ou recebiam à parte o seu purgante da casa e o seu ponto e vírgula, como se até nos pontos e vírgulas e nos purgantes se devesse estabelecer diferença entre pobres e ricos!
Outro costume foi por muitos anos observado, pelo qual os órfãos pobres de S. Joaquim recolhiam auxílios certos e às vezes avultados, que aproveitavam, aliás, a todos os seminaristas, porque vinham a pertencer ao seminário.
Saíam os pobres meninos com as suas vestes, que os faziam chamar carneiros e levando nas mãos uma bolsa, corriam os diversos bairros da cidade, entoando em alta voz estas palavras despertadoras da caridade pública. “Dai esmola aos meninos órfãos de S. Joaquim, pelo amor de Deus!”
E não é preciso dizer que as bolsas voltavam recheadas dos óbulos da caridade, mas também é verdade que os meninos viam-se expostos aos motejos e às zombarias dos garotos e dos rapazes sem juízo ou sem generosidade.
Semelhante prática tinha em verdade graves inconvenientes. Não era certamente a mais própria para o complemento da educação moral dos meninos, e podia mesmo facilitar a sua desmoralização.
Outros meios havia para chamar a caridade pública em socorro
do seminário dos pobres órfãos de S. Joaquim, e foi assim que entendeu o reitor
Padre Plácido Mendes Carneiro, que acabou com esse triste costume.
(continua...)
MACEDO, Joaquim Manuel de. Um passeio pela cidade do Rio de Janeiro. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=19326 . Acesso em: 31 jan. 2026.