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#Romances#Literatura Brasileira

Os Dois Amores

Por Joaquim Manuel de Macedo (1848)

O ex-escrivão tinha realmente dado um nome muito significativo àquela caixa: era o seu “coração”.

Era o coração do homem mau, intrigante, maledicente. Dentro dele estavam os materiais com que ele podia acender a guerra entre famílias.

Jacó era um malvado, ou para melhor dizer, um miserável malvado.

João não se demorou em fazer observações sobre o que tinha diante dos olhos; foi passando um por um todos aqueles papéis, até que chegou a um processo.

– Ah! ei-lo aqui!... ei-lo aqui!... exclamou sem poder suster-se.

E folheando o processo chegou a um lugar em que havia um documento:

– A letra falsa!... disse.

E como se mais nada lhe importasse do resto; como se houvera completado a sua missão naquela casa, guardou o processo no largo bolso de sua sobrecasaca, fechou o “coração” do mau, pôs de novo o cordão no pescoço de Jacó, e indo ao corredor da casa despertou a escrava, mandou que lhe abrisse a porta da rua e tomando o chapéu, saiu.

Era mais de meia-noite.

CAPÍTULO XLI

MARIANA

UMA VERDADEIRA guerra de emboscadas era a que estava declarada. Cada um dos combatentes tinha seu segredo, e por ele velava; alguns tinham dois segredos também: um que fazia alentar, e outro que fazia corar. Outros viviam suspensos e temerosos, vítimas e inocentes da intriga que fumegava.

João e Rodrigues, senhores das pontas daquela meada embaraçada, velavam, tendo os olhos fitos em Salustiano e Mariana; mas pareciam guardar ainda para si o – seu segredo querido, – que era talvez a história de Cândido.

Salustiano e Mariana esperavam e tremiam. Tinham que esperar. Ambos porém tinham ao mesmo tempo de corar.

A velha Irias ignorava porventura tudo? parece ao menos que sim.

Anacleto, Cândido e Celina eram aqueles que viviam suspensos e temerosos; eram eles as vítimas inocentes que se preparavam, porque o primeiro deveria chorar por sua filha, e os dois últimos por seu amor.

Henrique nada temia e tudo esperava. Estava quase a brilhar o dia de seu casamento.

Os acontecimentos se iam precipitando, e deixavam adivinhar que o drama corria para um próximo desfecho. O dia que sucedeu à noite de embriaguez de Jacó e de Helena, embriaguez que havia deixado cair o “coração” do ex-escrivão nas mãos do antigo agente da casa de Salustiano, foi de terríveis surpresas para o primeiro e para Mariana.

Salustiano soube na manhã desse dia que um documento importante, que o tornava criminoso público, havia caído nas mãos do homem que dois dias antes se declarara seu inimigo.

Concebe-se qual deveria ser o efeito dessa horrível notícia: era um raio que acabava de levantar-se sobre a cabeça do mísero mancebo.

A Providência castiga o crime por todas as maneiras: castiga-o mil vezes por seus descuidos e imprevidências. Aqueles que tinham comprado Jacó, poderiam e deveriam tê-lo visto queimar o processo e a letra falsa. A falta desse cuidado era agora um castigo que vinha sobre o crime que não deveria ficar impune.

Salustiano mandou deitar fora de sua casa o ex-escrivão, que acabava de lhe trazer a fatal nova, e ficou só... perdido em um mar de reflexões torturadoras... aterrado e furioso.

Depois lançou-se sobre sua secretária, e escreveu uma carta com rapidez e desesperação.

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Por sua parte Mariana tinha aparecido naquele dia mais abatida que de ordinário. Um sonho terrível a atormentara toda a noite; acordara três vezes aos gritos de uma criancinha recém-nascida que lhe bradava: – minha mãe!

Depois do almoço retirou-se para o seu quarto, e ficou dolorosamente pensando... no futuro que a esperava.

Era um futuro bem duvidoso!... de um lado estava Celina, que não daria nunca sua mão a Salustiano; do outro lado esse mancebo abominável pronto para falar, e com uma folha de papel na mão. E sua primeira palavra era a desonra e esse papel era o corpo de delito da desgraçada viúva!... e para completar o quadro, via-se no fundo um mísero velho curvado pelos anos e pelos pesares, chorando com os olhos em sua filha, e descendo para dentro de uma cova funda como um abismo!

E depois de tudo isso a imagem de um mancebo pálido e melancólico... a imagem de Henrique tão belo, tão cheio do mais puro amor, tão capaz de fazer a ventura de Mariana!...

Pensava nisso, via tudo isso a infeliz mulher, continuava sempre a pensar e a ver, até que às onze horas da manhã uma escrava entrou em seu quarto e entregoulhe uma carta que acabava de chegar.

Mariana abriu a carta e estremeceu ao ler a assinatura.

Era a carta de Salustiano.

Retirou-se a escrava a um aceno da viúva, que, apenas se achou só, leu a carta:

(continua...)

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