Por Joaquim Manuel de Macedo (1845)
— Oh!... exclamou o desconhecido; não era possível que, por mais tempo, continuasse a calúnia a manchar a virtude: é preciso convir de uma vez para sempre que não há véu suficientemente denso para esconder o crime. Deus castiga a maldade no próprio coração do mau com as torturas do remorso; mas não basta isso. Deus quer ainda que a inocência depois de perseguida e insultada pela aleivosia, apareça, enfim, bela e pura, como os raios do sol, passada a hora de um eclipse, brilham de novo luminosos e ardentes!... portanto, para o senhor houve desde sete anos uma pena justa e terrível, que lhe azedou talvez todos os seus dias, que o acompanhou nos seus prazeres, que fez o martírio de suas noites: havia o remorso!...
— Sim! sim!... disse Félix erguendo-se pálido e desfigurado; sim! eu tenho padecido horrivelmente!...
— E para Lauro abriu a fortuna os braços; e, enquanto sossegado dormia o sono da inocência, ela derramava sobre ele as riquezas e a felicidade. Era, porém, necessário ainda mais: era necessário que o filho repelido entrasse de novo na casa de seus pais puro e nobre, com a face descoberta, e dizendo — eis aqui a demonstração de minha inocência!... eu fui caluniado! — pois bem! esta demonstração, que hoje pode apresentar, deve-o também à sua virtude.
Félix em pé defronte do velho se conservava imóvel, estático como um epiléptico, com os olhos fitos no rosto desse homem terrível, que com sua voz áspera e grave continuou dizendo:
— Lauro de Mendonça, Sr. Félix, sentindo-se muito protegido pela fortuna nessa bela e generosa cidade da Bahia, criou para si uma família, de quem se fez protetor; uma família, cada membro da qual era um pobre, de quem ele se tornava pai; um mísero enfermo, a quem ele amparava e socorria. Entre muitos havia uma mulher, que a sorte tinha arrojado das riquezas na miséria; essa mulher, que era minha parenta... minha mãe... minha irmã... não importa o que; essa mulher, digo eu, morava a três léguas da cidade, a algumas braças de distância do mar, e perto da povoação de Itapoã; ela estava lázara... um único homem tinha verdadeira piedade de seus sofrimentos, ia mil vezes consolá-la... socorrê-la... sem cuspir junto dela: era Lauro. E a lázara foi escolhida pela Providência para rasgar o véu do crime!...
O desconhecido respirou um instante, depois prosseguiu:
— Há pouco menos de um ano, acabara um dia; alta ia uma noite de medonha tempestade; a morfética estava só; um filho que tinha, havia ido na manhã desse dia à cidade, e não pudera voltar com tão tormentoso tempo; à meia-noite batem à porta, e pouco depois um mancebo todo molhado e ferido, cai exausto de forças nos braços da morfética. Uma embarcação carregada de algumas centenas de míseros africanos soçobrara nesse dia; e o dono dela, esse mancebo, ele só, lutara vinte horas dentro de um pequenino batel contra a fúria dos ventos e do mar; finalmente, conseguindo chegar à praia de Itapoã, pudera ir bater na porta da lázara, e caíra nos braços dela, pedindo misericórdia.
Passada uma hora, o náufrago sentiu-se abrasado por terrível febre... houve um momento em que teve medo de morrer... pediu um padre, e não achou quem o fosse chamar; e então ele, jovem, belo, rico, caiu de joelhos aos pés de uma mulher morfética e arrasou um segredo infame!...
— E quem era esse mancebo?... perguntou Félix tremendo.
— Esse mancebo disse à lázara: “Senhora! eu tenho parte num crime, e quero salvar meu nome da desonra; sinto que vou morrer... eu deixei entre meus papéis uma carta que explica meu procedimento a respeito do que vou dizer, mas é possível que a carta desapareça; e, portanto, ouça-me, senhora: da casa de um negociante do Rio de Janeiro, de nome Hugo de Mendonça furtou-se, há seis anos, uma cruz cravada de preciosos brilhantes; imputou-se tal crime a um moço chamado Lauro... não foi ele; essa cruz existe em meu poder, mas o ladrão também não fui eu, não! não!... o ladrão chama-se Félix, é o guarda-livros do mesmo negociante; escreva, senhora, o que eu estou dizendo, e em todo o caso salve o meu nome da desonra...” — Traidor!... traidor!... balbuciou Félix.
— No outro dia, Sr. Félix, Otávio achou-se inesperadamente melhor; e apenas pôde levantar-se, partiu para a cidade, rogando com fervor à lázara que não divulgasse o segredo que lhe confiara; mas esta, que ouvira espantada o nome de seu benfeitor envolvido naquela estranha confissão, guardou para todos o segredo, menos para ele. Foi a Providência, exclamou o velho, sim! foi a Providência que patenteou o crime, e o criminoso!...
— Basta! disse Félix.
— Lauro, prosseguiu o desconhecido, determinou para logo demonstrar sua inocência; não podendo, porém, deixar a cidade da Bahia tão cedo, pôs a sua causa nas mãos de um parente da lázara, nas mãos de um homem fiel e resoluto, nas minhas mãos, enfim!... Vim eu, Sr. Félix, e meus olhos o têm seguido em toda a parte, há dois meses; agora, graças ao céu, a prova de seu crime vai aparecer; e Lauro de Mendonça, que cedo chegará, há de entrar na casa de seus pais nobre e puro, como sempre foi, e com a cabeça levantada acima das de seus inimigos, e esmagando com seus pés a serpente da calúnia!...
Frio glacial se havia apoderado de Félix: a notícia da próxima chegada de Lauro o enchia de terror indizível.
(continua...)
MACEDO, Joaquim Manuel de. O moço loiro. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=2107 . Acesso em: 6 jan. 2026.