Por Aluísio Azevedo (1897)
O noivo de Estela, embatucado e fulo de acanhamento, gaguejou algumas palavras de cortesia e entregoulhe a carta de Genoveva.
A Condessa o fez passar para a mesma antecâmara em que recebera o Médico Misterioso, ofereceulhe uma cadeira e foi sentarse a um canto, no divã, a romper vagarosamente o sobrescrito da carta.
Gustavo observavaa numa atitude cerimoniosa. Por mais esforços que fizesse, não conseguia pôrse à vontade defronte daquela mulher deslumbrante, que o dominava com o seu ar de imperatriz romana. Sentiase oprimido por uma irresistível e humilhante fascinação.
Vésper estava com efeito bela. Os braços e a garganta surgiamlhe de uma confusão de rendas claras, como de um floco de mitológicas espumas do oceano. A cabeça, rica de contorno, destacavase no enrodilhado artístico dos cabelos. Os olhos, mesmo quando fechados, transluziam os sutis fulgores da volúpia, e a boca o cruel segredo das paixões calculadas, das febres previstas e dos grandes delírios oficias do amor.
Ao terminar a leitura, ergueuse altiva, e perguntou ao portador da carta se sabia quem a tinha escrito.
— Um seu criado... disse timidamente o rapaz.
— O senhor? Mas nesse caso, entre o senhor e minha mãe há velhas relações?...
— Absolutamente, minha senhora. Eu mal a conheço!...
— E ela confioulhe tudo o que vem escrito?!...
— Sua mãe havia pedido a uma vizinha que lhe fizesse a carta; a vizinha não pôde servila e encarregoume por sua vez de...
— Ó senhores, com efeito! Mas então, minha mãe não teve o menor escrúpulo de envolver um estranho nos mistérios de minha vida?
Gustavo sorriu.
— Descanse, disse ele, erguendose; nunca terei ocasião de falar sobre semelhante cousa!...
— Hein?! perguntou ela, virando rapidamente a cabeça.
— Digo que não terei ocasião de falar no que me confiou a senhora sua mãe...
— E o que quer dizer o senhor com isso?
— Oh, minha senhora! quero dizer que não me meto com a vida alheia.
E o rapaz acrescentou, depois de uma pausa, durante a qual Ambrosina parecia meditar:
— O acaso conduziume ao lado de sua mísera mãe; ao vêla fiquei comovido, oferecime, não só para escrever essa carta, como para a entregar pessoalmente e exigir a resposta. Se a senhora, porém, não estiver por isso, eu direi à pobre lavadeira que se console, e veremos por outro lado... Sempre há de aparecer algum hospital que a receba por... compaixão.
— Mas, para que diabo me está o senhor a mortificar?... Minha mãe falame aqui a respeito da venda que fiz da casa do Engenho Novo: eu, porém, não cometi nenhuma ilegalidade com isso — a casa era minha! — nem podia eu adivinhar que um fato, aliás tão insignificante, trouxesse tais conseqüências!... Minha mãe, se não está comigo, é porque não quer... ela sabe perfeitamente que eu não lhe fecharia a porta. E para acabar com a questão, vou darlhe uma mesada.
E tornouse a assentarse.
— Mas, é o diabo! disse ela depois. Não me convinha envolver estranho algum neste negócio!...
— Bem! rematou Gustavo, tomando o chapéu; isso já não é comigo... Direi, pois, à senhora sua mãe alguma cousa a respeito da mesada, e mais tarde, então, a senhora responderá à carta por escrito...
E fez um cumprimento, despedindose de Ambrosina.
— Ainda não se vá!... pediu esta, com a voz suplicante e lançando sobre Gustavo um belo olhar de leoa subjugada.
— Em que lhe posso ainda ser útil?... perguntou o rapaz voltandose.
— Em muita cousa, disse ela, tomandolhe o chapéu e segurandolhe uma das mãos. Venha cá... Conversemos...
E depois de novamente assentados:
— O senhor vai ser o meu procurador em todos os negócios que disserem respeito à minha mãe.
— Está bem...
— Imagine que será a única pessoa senhora desse segredo, e que deve guardar sobre o assunto a maior discrição...
— Pode ficar descansada.
— Já que o acaso o pôs ao meu lado neste triste negócio, eu só ao senhor confiarei os meus sentimentos e as minhas intenções... Não me diga que não!
E, abalando mais a voz e chegandose intimamente de Gustavo, acrescentou, quase com a boca em seu ouvido:
— Não calcula quanto sofro!... Não calcula quanto me custou fingir a indiferença, que ainda há pouco afetei ao receber esta carta!... o modo pelo qual está ela escrita revela coração e caráter. Sei que nunca me hei de arrepender de fazêlo solidário de minhas penas íntimas ...
O senhor será o único homem que participará dos meus segredos, mas antes disso há de prometerme uma cousa...
— Que cousa?...
— Ser meu amigo e proválo prestandome desde já um serviço...
— Qual é?...
— Prevenir minha mãe de que eu irei hoje visitála, e vir buscarme à meianoite para me levar ao cubículo em que ela mora. Está dito?...
— Pois não...
(continua...)
AZEVEDO, Aluísio. A Condessa Vésper. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=2124 . Acesso em: 8 mar. 2026.