Por Joaquim Manuel de Macedo (1862)
Houve então, como hoje há, belas inteligências e estudantes igualmente aplicados e talentosos. Hoje, porém, os sistemas de instrução se acham aperfeiçoados, os livros sobram, os mestres não faltam e pode-se aprender muito mais, e mais depressa.
Entretanto, é preciso não confundir a verdade com o sofisma. Podeis relatar-me trinta ou quarenta fatos de meninos prodígios que em dois ou três anos, e até mesmo em alguns meses, aprenderam latim, francês, inglês, história, geografia, aritmética e geometria, filosofia, retórica e outras coisas mais, e foram aprovados com louvor em seus exames de preparatórios em certas academias do império.
Não ponho em dúvida os fatos. Mas não creio no prodígio. Todos sabem como esses milagres se arranjam, e apesar do patronato, o menino prodígio não passará de um nihil in omnibus.
Aprendia-se antigamente o latim durante cinco anos e mais nos seminários. Mas os estudantes saíam das aulas sabendo alguma coisa, e os padres liam o seu breviário com consciência e entendendo o que liam, o que era por certo muito melhor do que ver-se um analfabeto que, aborrecido da taverna em que é caixeiro, determina ser padre, e no fim de alguns meses toma ordens de presbitério sem saber como concorda o sujeito com o verbo, sem poder cantar uma epístola, se não entre um chuveiro de silabadas e fazendo ouvir a palavra de Deus sem compreendê-la, como um papagaio que repete: “Quem passa? É o rei que vai à caça.”
Salvas honrosas exceções, o nosso clero nunca foi grande coisa quanto à ilustração. Mas também, nunca se mostrou tão ignorante, nem tão abaixo da sua muito nobre e veneranda missão, como hoje, salvas ainda honrosas exceções.
Por conseqüência, era mil vezes melhor aprender latim durante quatro ou seis anos do que engrolar um dominus vobiscum em dois ou três meses.
Mas onde vou eu com as minhas costumadas divagações? Deixemos em paz os improvisos de padres e de acadêmicos, e vamos continuar a história do seminário dos órfãos de S. Joaquim.
Já falei da administração do estabelecimento. Vou outra vez ocupar-me com os seminaristas.
O refeitório do seminário era como podia ser o de uma casa de pobres, e ressentia-se por certo de uma ruim disposição, logo na primeira comida, porque, durante muitos anos, não houve almoço prestado pelo estabelecimento. Os alunos almoçavam à sua custa e, por conseqüência, os pobres ficavam à mercê dos ricos ou de alguns recursos devidos à caridade, ou enfim não almoçavam, o que, aliás, raramente acontecia.
Nos domingos, porém, e nos dias de festa, fazia-se uma exceção a esta regra duramente econômica, e dava-se a cada seminarista um opíparo almoço, que constava exclusivamente de um pão com manteiga.
Ao jantar e à ceia, a mesa era simples, mas farta.
Ao jantar, que tocava ao meio-dia, havia carne de vaca cozida com couves e toucinho, carne guisada, a que os seminaristas chamavam serrabode; a esse prato se ajuntava arroz, e por sobremesa fruta do tempo.
Nos dias de preceito, a carne de vaca era sempre substituída por bacalhau ou peixe grosso salgado.
Um vice-reitor do seminário deixou a esse constante e invariável prato de carne cozida ou guisada o nome de purgante da casa, porque era de regra, que raramente falhava, que os meninos que entravam para o seminário, ainda mesmo amarelos e magros, mostravam-se no fim de dois meses corados e brilhantes de saúde, depois de haverem passado por um pro fluvio ventris que durava algumas semanas.
À noite, constava a ceia de um único prato e fruta do tempo, e nos dias de preceito, esse prato era simplesmente de ervas ou de arroz com camarões, que os seminaristas tinham alcunhado com uma certa propriedade chamando-o o ponto e vírgula.
Mas nem a falta do almoço nem a parcimônia da mesa do refeitório do seminário dos órfãos de S. Joaquim me causam verdadeira estranheza. A casa era pobre, não podia dar mais, e portanto, deviam todos ter paciência. O que, porém, se tornava muito censurável era o costume vil e indigno que fazia excluir no mesmo seminário da mesa dos alunos contribuintes os alunos gratuitos! Não se permitia que os pobres comessem serrabode nem ponto e vírgula com os ricos! Em uma instituição filha legítima da caridade, ofendia-se mortalmente a caridade para se render cultos ao ouro! Em uma casa de Jesus Cristo, dobravam-se os joelhos a Pluto e ao Diabo!
Felizmente, sendo reitor o Padre Plácido Mendes Carneiro, foram por suas repetidas reclamações abolidas essas exceções odiosas, e que deviam envergonhar aqueles que as tinham estatuído.
Além dos seus estudos de latim e cantochão, os seminaristas
de S. Joaquim ocupavam-se em exercícios de piedade cristã.
(continua...)
MACEDO, Joaquim Manuel de. Um passeio pela cidade do Rio de Janeiro. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=19326 . Acesso em: 31 jan. 2026.