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#Romances#Literatura Brasileira

O Sertanejo

Por José de Alencar (1875)

Depois de ter provido à defesa, o senhor da Oiticica chamou o capelão com quem teveuma breve prática. Azoado com as ordens que recebia, o capelão redarguiu: 

— Êle não sofrerá, sr. capitão-mór? 

— Que remédio tem senão sofrer? 

— E as consequências? 

— Tem mêdo, reverendo? 

— Se me desem um bacamarte, mostraria que um padre é um homem; porém assim de braços cruzados, como um criminoso que vai a fuzilar… 

— Temos dito, padre Teles; trate de cumprir as nossas ordens. 

O capelão chamou alguns agregados à capela, donde êsses homens conduziram para a frente do terreiro, adiante da oiticica, vários objetos cuja natureza não se podia bem distinguir por causa do escuro que ainda fazia. 

À claridade da alvorada que raiava, pôde-se então divisar um altar já vestido de rica toalha de labirinto e renda, desfraldada sôbre o frontal de brocado carmesim. Na peanha erguia-se a cruz de pau-santo, com a imagem de Cristo lavrada em prata; dos lados estavam as serpentinas igualmente de prata. 

Foi grande a surpresa no campo do Fragoso, quando alí deram com a novidade que ia pelo terreiro da Oiticica. 

Uma alvorada de cornetas chamou a atenção de todos, cujas vistas voltaram-se para aquele ponto, e fitaram-se cheias de curiosidade no espetáculo, que se lhes apresentava. 

A escolta do capitão-mór formava em duas alas de um e outro lado do terreiro, a partir dos 

cantos de casa, figurando as naves do altar, que ficava no centro. O menino, que servia de sacristão, acendia com o gancho as velas da serpentina, cuja flama ainda luzia na fôsca palidez do crepúsculo. 

Ourém, que fôra um dos primeiros a acudir ao toque da alvorada, estava conjeturando sôbre a significação da quela cena estranha, e ouvia as observações de João Correia e Daniel Ferro: 

— É alguma ladainha que vão rezar para pedir a intercessão divina, opinara o último. 

— Ou talvez queiram ouvir missa, para que o Espírito-Santo inspire ao Campelo uma boa resolução. E não passe de lembrança da mulher, a D. Genoveva. 

— E da filha. Que pensa? Ela já estava rendida à ternura do nosso Fragoso, e por seu gôsto as coisas tomariam outro jeito. 

— Mas, senhores meus, acudiu Ourém, ladainha ou missa, não tinham êles a capela da fazenda, que lé está aberta? 

— É que não caberiam dentro. 

— Não é gente da fazenda que lá vem descendo? atalhou o licenciado, apontando para o Nicácio que nesse momento deixava o terreiro em busca do acampamento do Fragoso. 

— Espere!… E traz carta, acrescentou Daniel Ferro, afirmando a vista. 

Fragoso apareceu então. Embora tivesse acordado antes, e ouvisse o toque das cornetas, não quis mostrar-se em desalinho, e primeiro cuidou de compor-se com o apuro do costume, que não dispensava em nenhuma circunstância, quanto mais nesta em que achava-se à vista de D. Flor e podia a cada momento ser chamado à sua gentil presença. 

— Então que novidades temos, primo Ourém? perguntouo capitão. 

O licenciado respondeu apontando o portador que aproximava-se, e declamando com ênfase os versos que abrem um dos cantos dos Lusíadas: 

 

Depois de procelosa tempestade, 

Noturna sombra e sibilante vento,

Traz a manhã serena claridade, 

Esperança de amor e casamento. 

 

— Digo amor e casamento, que para o nosso caso vale tanto como pôrto e salvamento; pois, que melhor pôrto para o coração batido pelo mar proceloso das paixões do que o afeto sereno da espôsa; e que melhor salvamento para as calamidades de uma guerra de família, do que transformá-la em festa de bodas, e fazer dos inimigos parentes? 

Fragoso, alvoroçado com as palavras do Ourém, e com a vista do emissário que parecia confirmá-las, recebia satisfeito essa alvíçaras; mas como acontece quando se alcança a realização de um desejo muitas vezes frustrado, o mancebo ainda vacilava emacreditar na sua felicidade. 

— Quem lhe diz, primo Ourém, que essa carta do capitão-mór nos trará tão boa nova? 

— Diz-me aquele altar que lá está armado, primo Fragoso. O capitão-mór é soberbo e também desconfiado, cede à intimação porque não tem outro remédio; mas quer fazer as coisas de modo que pareça que é êle quem ordena, guardando-se ao mesmo tempo de alguma futura logração. 

— Cuida então que êle vai exigir de mim a condição de casar-me sem mais demora com a 

filha? tornou Fragoso a rir. 

— Tenho-o como certo. Aquela carta é uma ordem, ou como diríamos em linguagem forense, um mandado cominatório para o capitão Marcos Antônio Fragoso comparecer incontinenti na oiticica a fim de receber-se em matrimônio com a sr. D. Flor Pires Campelo, sob pena de, não o fazendo, ser tido e havido por desleal, indigno, etc. 

— Boa maneira de sair-se da entalação! observou João Correia. 

(continua...)

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