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#Romances#Literatura Brasileira

O Guarani

Por José de Alencar (1857)

Segundo as leis tradicionais do povo bárbaro, toda a tribo devia tomar parte no festim: as mulheres moças tocavam apenas na carne do prisioneiro; mas os guerreiros a saboreavam como um manjar delicado, adubado pelo prazer da vingança; e as velhas com a gula feroz das harpias que se cevam no sangue de suas vítimas. 

Peri contava pois com toda a segurança que dentro de algumas horas o corpo envenenado da vitima levaria a morte às entranhas de seus algozes, e que ele só destruiria toda uma tribo, grande, forte, poderosa, apenas com o auxilio dessa arma silenciosa. 

Pode-se agora compreender qual tinha sido o seu desespero vendo esse plano inutilizado; depois de ter desobedecido à sua senhora, depois de haver tudo realizado, quando só faltava o desfecho, quando o golpe que ia salvar a todos caia, mudar-se de repente a face das coisas e ver destruída a sua obra, filha de tanta meditação! 

Ainda assim quis resistir, quis ficar, esperando que os Aimorés continuariam o sacrifício; mas conheceu que a resolução de Álvaro era inabalável como a sua; que ia ser a causa da morte de todos os defensores fiéis de D. Antônio, sem ter já a certeza de sua salvação. 

No primeiro momento que sucedeu à confissão de Peri, todos os atores desta cena, pálidos, tomados de espanto e de terror, com os olhos cravados no índio, duvidavam ainda do que tinham ouvido; o espírito horrorizado não formulava uma idéia; os lábios trêmulos não achavam uma palavra.  

D. Antônio foi o primeiro que recobrou a calma; no meio da admiração que lhe causava aquela ação heróica, e das emoções produzidas por essa idéia ao mesmo tempo sublime e horrível, uma circunstância o tinha sobretudo impressionado.  

Os aventureiros iam ser vitimas de envenenamento; e por maior que fosse o grau de baixeza e aviltamento a que tinham descido esses homens pela sua traição, a nobreza do fidalgo não podia sofrer semelhante homicídio.  

Ele os puniria a todos com a morte ou com o desprezo, essa outra morte moral; mas o castigo na sua opinião elevava a morte à altura de um exemplo; enquanto que a vingança a fazia descer ao nível do assassinato. 

 

— Vai, Aires Gomes, gritou D. Antônio ao seu escudeiro; corre e previne a esses desgraçados, se ainda é tempo! 


O PAIOL 

 

Cecília ouvindo a voz de seu pai, estremeceu como se acordasse de um sonho. 

Atravessou o aposento com passo vacilante, e chegando-se a Peri, fitou nele os seus lindos olhos azuis com uma expressão indefinível. 

Havia nesse olhar ao mesmo tempo a admiração imensa que lhe causava a ação heróica do índio; a dor profunda que sentia pela sua perda; e uma exprobração doce por não ter ele ouvido as suas súplicas. 

O índio nem se animava a levantar os olhos para sua senhora; não tendo realizado o seu desejo, considerava agora tudo quanto fizera como uma loucura. 

Sentia-se criminoso; e de toda a sua ação heróica e sublime para os outros, só lhe restava o pesar de ter ofendido Cecília, e de lhe haver causado inutilmente um desgosto. 

— Peri, disse a menina com desespero, por que não fizeste o que tua senhora te pedia?... 

O índio não sabia o que responder; temia ter perdido a afeição de Cecília, e essa idéia martirizava os últimos momentos que lhe restavam a viver. 

— Cecília não te disse, continuou a menina soluçando, que ela não aceitaria a salvação com o sacrifício de tua vida? 

— Peri já te pediu que perdoasses! murmurou o índio. 

— Oh! Se tu soubesses o que fizeste hoje sofrer a tua senhora!... Mas ela te perdoa. 

— Ah!... exclamou Peri, cuja fisionomia iluminou-se. 

— Sim!... Cecília te perdoa tudo que sofreu, e tudo que vai sofrer! Mas será por pouco tempo... 

A menina dizia essas palavras com um triste sorriso de sublime resignação; conhecia que não havia mais esperança de salvação, e esta idéia quase a consolava. 

Não pôde acabar porém; a palavra ficou-lhe presa aos lábios, trêmula, convulsa: seus olhos se fixavam em Peri com um sentimento de terror e de espanto. 

A fisionomia do índio se tinha decomposto; seus traços nobres alterados por contrações violentas, o rosto encovado, os lábios roxos, os dentes que se entrechocavam, os cabelos eriçados davam-lhe um aspecto medonho. 

— O veneno!... gritaram os espectadores dessa cena horrorizados. 

Cecília fez um esforço extraordinário, e lançando-se para o índio, procurou reanimá-lo. 

— Peri!... Peri!... balbuciava a menina aquecendo nas suas as mãos geladas de seu amigo.

— Peri vai te deixar para sempre, senhora. 

— Não!... Não!... exclamou a menina fora de si. Não quero que tu nos deixes!... Oh! tu és mau, muito mau!... Se estimasses tua senhora, não a abandonarias assim!... 

(continua...)

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