Por Joaquim Manuel de Macedo (1848)
– O sr. Jacó diz que o casal brigado e separado reconciliou-se em conseqüência de uma carta muito cheia de lamúrias e de tolices, escrita por um deles.
– É certo!
– Foi tal qual.
– Sim; mas ontem o sr. Jacó sustentou que a carta estava assinada pela mulher, e a sra. d. Helena jurou que era do próprio punho do marido.
– É da mulher.
– É do marido.
– Então em que ficamos?
– Não faltava mais nada?... uma mulher abaixar a cabeça a um homem!...
– Pois digo-lhe eu que a carta é da mulher! exclamou Jacó, dando na mesa um forte murro.
– É mentira, sr. João!
O velho soltou uma gargalhada estrepitosa.
Jacó e Helena, extremamente espiritualizados, teimavam um com o outro com desespero e furor. João, em vez de apaziguá-los, os desafiava cada vez mais com suas gargalhadas.
– Ferve-me o sangue quando esta mulher do diabo teima comigo!
– Este homem, sr. João, não abre a boca que não minta! é um inimigo das mulheres...
– Pois se a carta é da mulher!...
– É do marido!
– Oh! senhora... não teime...
– Tenho dito; é do marido.
– A senhora não sabe que eu tenho a carta no meu “coração”?..
João fez um movimento.
– Pois, se lhe parece... eu não tenho medo...
Jacó olhou para João com ar ainda meio temeroso.
– Deixemo-nos disto, disse este; acabemos com esta contenda; vá à saúde dos bons esposos!
Os copos esvaziaram-se de novo; daí a algum tempo João tornou:
– Mas vamos: a carta era da mulher ou do marido?
A embriaguez de Jacó e Helena já então era completa; gaguejavam ambos, falando ao mesmo tempo.
– É da mu... lher...
– É do ma...ri...do...
– Quem fala verdade? decidamos.
– Eu...
– Eu...
Os dois disputantes ficaram desesperados outra vez.
– Eu vou... bus... car... o “co... ra... ção”!... exclamou Jacó.
Helena respondeu-lhe com um insulto, e o escrivão, cambaleando e segurando-se pelas paredes, dirigiu-se ao seu quarto.
No entretanto, e para que Jacó não se deixasse ficar no quarto, pois que tudo se podia esperar do estado de embriaguez em que se achava, João, instigando Helena, fazia com que a mulher injuriasse em alta voz a seu marido.
Jacó apareceu de novo à porta da pequena saleta.
João lançou um olhar cheio de curiosidade, de dúvida e de esperança sobre aquele homem.
O ex-escrivão vinha abraçado com uma caixa de jacarandá, que se mostrava sob a forma de um coração.
Era de fato aquilo que ardentemente desejava ver o antigo agente de Salustiano: era o “coração” de Jacó.
– Até que enfim! murmurou João por entre os dentes.
E ergueu-se para ir ajudar a Jacó, que vinha cambaleando.
O ex-escrivão chegou finalmente à mesa, e indo depositar aí a caixa que trazia, debruçou-se sobre ela olhando meio risonho, e ainda meio desconfiado para João.
– Vamos decidir a questão, disse este.
– É do ma.... ri... do, balbuciou Helena.
Com um movimento de desespero o ex-escrivão desabotoou o seu infalível fraque roxo, abriu a camisa, e deixando ver um peito vermelho e cabeludo, foi com a mão mal segura tirar um cordão preto, a que estava presa uma pequena chave.
– Vejamos... vejamos... disse João todo desejos e esperanças.
Jacó trabalhou por muito tempo para introduzir a chavinha na fechadura; porém, conhecendo que o não podia fazer, sentou-se de novo risonho, e disse gaguejando:
– Que... di... a... bo....não pos... so... pa... re... ce... me que... es.. .tou bê...ba...do
– Dê-me a chave, que eu abro...
O ex-escrivão soltou uma gargalhada, sacudiu a cabeça e tornou a enfiar o cordão no pescoço.
Também não vale a pena perder tanto tempo por isso, tornou João; acabemos o prazer desta noite com um último copo de vinho.
E encheu os copos. Jacó bebeu metade e entornou sobre a mesa e sobre si mesmo a outra metade.
Helena não bebeu, porque já dormia a sono solto.
O antigo agente de Salustiano deixou cair a cabeça, e pareceu adormecido.
Daí a pouco Jacó roncava como um endemoninhado.
No fim de um quarto de hora João ergueu-se, observou cuidadoso os dois esposos; abriu a camisa do ex-escrivão, tirou-lhe o cordão do pescoço, e introduzindo a chavinha na fechadura da misteriosa caixa, deu uma volta, e o “coração” de Jacó ficou por dentro patente a seus olhos.
A caixa estava cheia de papéis de todos os tamanhos e de toda natureza.
Cartas de família, escritos de amor, originais de antigos impressos, tiras de papel com algumas linhas escritas, mas cujo sentido era quase impossível decifrar, antigos processos... papéis judiciais... e uma multidão imensa de outros objetos enchiam o “coração” de Jacó.
(continua...)
MACEDO, Joaquim Manuel de. Os Dois Amores. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=2158 . Acesso em: 6 jan. 2026.