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#Romances#Literatura Brasileira

Numa e a Ninfa

Por Lima Barreto (1911)

— Questão não está na coisa nova mas “diâmetro” do tubo por onde passe o gaz. Diz fisique ...

— Bem — perguntou-me o crédulo merceeiro — quanto queres por isso?

— Quatro mil réis.

— Muito caro. Demais, não sei se isso presta.

— Senhorre experimenta. Se não prestá pode dá de novo a mim.

— Bem. Fico.

— Bem, senhorre, eu deixa ficar, mas senhorre dá uma garantia.

— Que garantia?

— Pode dá cinco tostões e o outro bico e eu volta amanhã ver senhorre compra.

— Vá lá.

Logo que me pilhei fora das vistas do homem, tratei de arear o bico que me dera e fui à outra casa propor a venda do meu bico aperfeiçoado. Muitos não quiseram, mas doze aceitaram e voltei, à tarde, para a cidade, com um bico.

Continuei a fazer a mesma coisa por outros bairros e assim pude viver cerca de um mês.

Todos esses planos e expedientes não me davam senão insignificantes resultados, de modos que eu estava sempre a braços com a mais atroz miséria.

Saía de uma semana de necessidades, entrava em outra em que comia, mas levava assim, sem dar um passo definitivo e seguro.

Muitas vezes pensei no roubo, mas este nunca dá coisa que se possa fazer o restante da vida segura e os riscos são muitos.

Seria magnífico um estelionato, mas, para tal, eram indispensáveis elementos que me faltavam: conhecimento do mecanismo da administração ou do comércio, capacidade para falsificar documentos e outros de igual jaez.

Pensava nessas coisas todas com a mesma frieza com que um general determina tal ou qual movimento, sabendo que as suas ordens vão determinar a morte de milhares de pessoas.

Não me vinha ao pensamento nenhuma impossibilidade moral nem qualquer consideração sobre o julgamento que a opinião podia ter do meu ato.

Sofria necessidades, tinha fome e queria viver de qualquer forma, fazendo só o que os grandes capitalistas, os políticos, os comerciantes e os industriais fazem, baseando-se nas leis e em transações mútuas entre eles.

Se em Odessa não me vieram esses desejos, é porque lá ainda estava moço e tinha dentro de mim essa horrorosa esperança que nos faz escravos desses exploradores todos, disfarçados sob os mais pomposos rótulos. No Brasil, não; já tinha mais de trinta anos e estava vendo a minha vida escorrer sem satisfação, sem sossego e sem ventura.

Demais, lá, se bem que não quisesse, tinha um resto de respeito pelas instituições pátrias; mas aqui o meu desprezo era total, era completo e por mais que me esforçasse por ter alguma veneração pelos senadores, deputados e autoridades restantes, não me era possível.

Eu as tinha visto por assim dizer no nascedouro e sabia perfeitamente como se faziam, o que representavam de fraude, de compressão e corrupção.

Conhecia-lhes, além do mais, a sua ignorância, a sua falta de inteligência e a nenhuma sinceridade deles todos.

Não deixava de influir também nesse grande desprezo que tinha pelos homens do Brasil, uma boa dose de preconceito de raça.

Aos meus olhos, todos eles eram mais ou menos negros e eu me supunha superior a todos.

De resto, eu — eu que era um pobre imigrante — não fora um dia aclamado como “salvador” de um Estado! De resto, eu — eu que não sabia o tempo de gestação de uma vaca — não fora Diretor da Pecuária do Brasil!

Eu desprezava tal terra, desprezava-a soberanamente, olimpicamente, inteiramente.

Para mim, era uma sociedade de ladrões, de mistificadores, de

exploradores, sem tradições, sem idéias, disposta sempre à violência e opressão. A Rússia me pareceu mil vezes melhor...



(continua...)

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