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#Romances#Literatura Brasileira

O Coruja

Por Aluísio Azevedo (1895)

À detonação do tiro os criados haviam acudido; Coruja foi carregado para uma cama; descalçaram-no e banharam-lhe o pé com arnica, enquanto não chegava o médico, que se fora chamar a toda pressa.

Teobaldo parecia louco, estava atarantado, ia e vinha do gabinete ao quarto, esmurrando a cabeça, torcendo os punhos, sem encontrar palavras bastantes para se maldizer. É que duas idéias o atormentavam: a de haver ferido o amigo e a de vingar-se do outro. - Ah! resmungava de vez em quando, aquele miserável há de cair-me nas mãos! e há de pagar-me bem caro a sua infâmia!

Logo que o médico declarou que o ferido não apresentava maior perigo, Teobaldo enterrou o chapéu na cabeça e teria ganho a rua se gente de casa, por ordem de Branca não lhe impedisse a saída.

Foi, porém, necessária a intervenção do Coruja para que ele consentisse em ficar. - Não saias ainda, pediu-lhe aquele; o médico acaba de dizer que a extração da bala há de ser um tanto dolorosa; fica para me animares com a tua companhia.

Teobaldo compreendeu a intenção de tais palavras e assentou-se resignado junto à cama de André.

Entretanto fez-se a operação logo que a ferida esfriou. Branca, enquanto não viu o Coruja com o pé aparelhado, não se desprendeu do lado dele, cercando-o de desvelos, ameigando-o e servindo de ajudante ao médico.

Este, apesar das repetidas perguntas que ela lhe fazia a respeito do ferido, não quis logo falar abertamente e só ao despedir-se, confessou que o Coruja havia de ficar aleijado, visto que a bala lhe cortara vários tendões do pé; mas que não tinham a recear amputação, se se não descuidassem de lhe dar o tratamento necessário.

Com efeito, durante os dias que a isto se seguiram, era André a maior preocupação dos que moravam naquela casa. Todos os cuidados de Branca lhe pertenciam.

Teobaldo, porém, achava-se em terrível estado de inquietação, já porque lhe chegara aos ouvidos a notícia de que o Aguiar havia arribado para a Europa, e já porque as suas circunstâncias não lhe permitiam naquela ocasião restituir ao amigo o dinheiro de que este se privara por causa dele.

- Todavia, disse-lhe o Coruja, acho que, para evitares um escândalo à tua esposa, deves fazer acreditar a todos que o pagamento das letras do Aguiar foi feito por ti e não por mim; e, então, quando puderes, me restituirás a quantia, sem ser necessário que mais ninguém além de nós saiba de tais particularidades.

Teobaldo jurou que, desse momento em diante, não descansaria enquanto não tivesse obtido o dinheiro necessário para evitar que o amigo ficasse em falta com o Banco. Mas o dia destinado à primeira prestação do Coruja chegou, sem que o outro tivesse obtido coisa alguma. E, para maior desgraça, André ainda não podia andar, senão de muletas. O colégio foi posto de novo em arrecadação e vendido em proveito do Banco.

XVIII

Ah! que terrível efeito produziu sobre D. Margarida e mais a filha a notícia de que o colégio já não pertencia ao Coruja.

Ficaram indignadas, como se fossem vitimas de um grande roubo. Dir-se-ia que aqueles seis contos lhe saíam das algibeiras.

- Mas, onde diabo meteu este homem tanto dinheiro?... bradava a velha no auge da fúria. Ora pois! que ele consigo não se arruinou decerto! E ninguém me tira da cabeça que em tudo isto anda grande maroteira se é que aquele cara de boi morto não enterrou tudo no jogo!

A história do tiro no pé muito intrigou igualmente a D. Margarida. Sendo uma das versões, o tiro fora disparado por Teobaldo em um exercício de atirar ao alvo e, segundo outra, o Coruja fora o próprio a ferir-se, metendo-se a carregar uma arma, que ele não conhecia.

Havia ainda uma outra versão, e era que, entrando Teobaldo em casa e encontrando André, fizera fogo sobre ele, na persuasão de que surpreendia um vagabundo dentro de seu quarto.

Esta última versão fora levantada pelo alferes Picuinha, que agora não perdia ocasião de meter a ridículo o pretendente de Inez.

D. Margarida, ou fosse por cortesia ou por mera curiosidade, apresentou-se, acompanhada com a filha, em casa de Teobaldo, dizendo que iam fazer uma visita ao Sr. Miranda.

Este, mal foi interrogado pelas duas senhoras, confirmou o boato de haver ele próprio se ferido; depois do que teve de tratar a respeito do seu casamento, assunto para o qual estivera até ai D. Margarida a empurrar a conversa.

- Não sei, minha senhora, não sei que lhe diga, murmurou o Coruja com um suspiro.

- Como não sabe o que me diga?...

- É que as coisas me correram muito ao contrário do que eu esperava..

- Mas o senhor não tinha dito que o casamento seria agora sem falta...

- Disse, é exato, mas esperava estar também com a minha vida segura e confesso que nunca a tive tão mal amparada!

- Isso quer dizer que ainda não é desta vez que se faz o casamento?

- É verdade, ainda não pode ser desta vez.

(continua...)

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