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#Romances#Literatura Brasileira

A Condessa Vésper

Por Aluísio Azevedo (1897)

— E se lhe aparecesse um rapaz, pobre, mas trabalhador e honesto, que a amasse muito... muito...?

Estela sorriu, de olhos baixos, e começou a torcer e destorcer nos dedos o lenço de algodão que tirara da algibeira; ao passo que a lôbrega semanária, num frouxo de tosse recalcitrante, vinha cada vez mais aproximando deles as duas negras vigias dos seus óculos.

— Então... nada me responde?... insistiu Gustavo.

— Não creio... segredou Estela.

— Pois sei eu de um moco nessas condições, cujo maior desejo na vida é obtê­la por esposa...

A tosse da velha tomou proporções intimidadoras, e daí por diante não teve tréguas. Estela torcia e destorcia o lenço com um frenesi mais significativo.

— Vamos... prosseguiu o rapaz, ganhando ânimo e levantando a voz para dominar a tosse da semanária; vamos... diga se posso levar ao desgraçado uma esperança... feliz, ou se tenho de desenganá­lo para sempre... Responda, Estela!...

— Não sei...

— E se uma família de gente virtuosa e meiga a viesse buscar aqui, com o fim de a levar para a companhia dela, não como criada, nem agregada, mas como amiga, que pode quando quiser montar a sua própria casa e constituir honestamente o seu lar... Diga, Estela, a senhora não consentiria em acompanhá­la?...

Ela respondeu que sim com a cabeça, e Gustavo, porque a velha tossia agora desesperadamente, exclamou, soltando verdadeiros berros:

— Então em breve estarei de volta, e comigo virá a mãe dessa família, que se entenderá com a diretora do colégio! Adeus, adeus, minha noiva querida!

Estela, radiante de alegria, estendeu a Gustavo uma das suas mãozinhas, que ele avidamente tomou para levar aos lábios.

A semanária, porém, sem largar de tossir, se havia já metido de permeio entre eles, enquanto por todas as portas do salão surgiram, fariscantes, muitas outras toucas de linho branco, que a tosse da semanária e os gritos do rapaz tinham posto em reboliço.

Gustavo bateu em retirada, mas lá da porta de saída ainda se voltou para a rapariga, a dizer com os olhos e com o estalar dos lábios o que as suas palavras não conseguiram.

E desceu a escada do jardim aos pulos, como se todo corpo lhe acompanhasse os saltos do coração, e lá fora meteu­se de novo no seu tílburi, ardendo por chegar a casa e entender­se com D. Joana sobre o que acabava de combinar com a pupila da lavadeira.

Ao chegar à rua do Rezende, entregaram­lhe uma carta, que ele arremessou para o lado, sem abrir, e daí a pouco ficava assentado, de pedra e cal que Estela seria reclamada no dia seguinte às irmãs de caridade pela família Silva.

Só na ocasião de recolher­se à cama é que o rapaz abriu afinal a carta, e leu o seguinte:

"A condessa Vésper comunica ao Sr. Gustavo Mostella que está às ordens dele amanhã às três horas da tarde, Largo do Rocio nº ..."

XLII

RAPINA

Em caminho da casa de Ambrosina, Gustavo ia formulando intimamente as melhores considerações sobre os seus próprios atos. Sentia esse lisonjeiro gozo que experimentamos ao fazer bem a qualquer pessoa, e ao qual, sem intenções paradoxais, se poderia chamar egoísmo da bondade ou desvanecimento do altruísmo.

Calculava de si para si que iria entestar com uma pantomimeira impertinente e orgulhosa, ele, porém, ia bem prevenido, e não desanimaria por isso, nem se daria por achado — havia de entregar­lhe a carta da pobre lavadeira, declarando francamente o deplorável estado em que viu a infeliz, e obrigando, com ríspidas razões, à famigerada Condessa, a mostrar­se menos desumana com a desgraçada que a trouxe nas entranhas.

E até, como sucedera noutro tempo com Gabriel em circunstâncias, aliás, bem diversas, punha já em ordem os seus belos raciocínios de poeta, formava em linha de batalha os esquadrões dos implacáveis e persuasivos argumentos, com que havia de vencer aquele duro coração de libertinha, e arrastá­lo à compreensão dos deveres filiais, por entre uma brilhante escolta de objetivos em brasa.

E caminhou firme para o alcácer inimigo, cuja porta atravessou impávido sendo introduzido lá em cima à voluptuosa saleta de espera por uma francesa velha e arrebicada, que lhe deu familiarmente o tratamento de "Cher mignon".

Gustavo, depois de medir desdenhosamente de alto a baixo, disse­lhe em tom de ordem que fosse prevenir à dona da casa da sua presença ali. E, fechando a cara e dilatando os lábios, soprou com força, como se atiçasse o morrão que levava aceso para lançar fogo à sua artilharia.

Mas, ao primeiro olhar da inexpugnável Ambrosina, que não levou muito a vir, todo esse arsenal de guerra se dispersou pelo ares, que nem um frouxel de paina ao sopro de inesperado tufão.

Ela, entretanto, parecia indiferente, e se alguma cousa transpirava dos seus gestos e da sua fisionomia, era uma formal amabilidade, cujo frio sorriso não passava dos dentes.

(continua...)

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