Por Joaquim Manuel de Macedo (1862)
Joannes Portugalioe, Brasilioe et Algarbiorum Rex et orphanorum Pater.
Asseveram-me que estas inscrições foram ditadas pelo célebre e venerando Silvestre Pinheiro.
Já se vê que os órfãos de S. Pedro, depois de terem mudado de nome uma vez pelo menos, mudaram ainda mais vezes de vestidos. Parece, porém, que gozaram de alguma consideração no reinado do Sr. D. João VI, pois que mereceram a concessão de uma medalha de honra. Mas isso não os livrou de perderem, nessa mesma época, o seu seminário, como teremos de ver em breve.
Cabia em tal caso lembrar o ditado que diz: “Pobre, quando vê muita esmola, desconfia.”
É, porém, conveniente não atropelar os fatos, nem confundir a história.
Ainda tenho bastante que dizer antes de chegar a essa primeira violência feita aos órfãos de S. Joaquim. Ficarei aqui, por hoje.
II
A administração do antigo seminário dos órfãos de S. Joaquim foi a princípio, e durante muitos anos, da maior simplicidade, e pouco mais ou menos como fora primitivamente a do colégio dos órfãos de S. Pedro.
O chefe supremo do estabelecimento era o bispo diocesano do Rio de Janeiro, sendo por provisão dele nomeados o reitor, o vice-reitor e os professores.
Os superiores do seminário eram quatro, a dois dos quais estava especialmente incumbida a administração.
O reitor governava o seminário, nomeava algum empregado subalterno de que havia necessidade e respondia pelo comportamento moral e religioso dos seminaristas.
O vice-reitor era o ecônomo da casa, dava todas as providências a fim de que nada faltasse daquilo que se garantia aos meninos, velava pela pontualidade dos atos da comunidade, fazia as compras necessárias, cobrava as rendas do patrimônio do seminário, bem como de uma terça parte do rendimento de um trapiche que se chamava da Ordem, e a que o estabelecimento tinha direito. Assistia ao refeitório e celebrava missa todos os dias às sete horas da manhã.
Os outros dois superiores eram um professor de latim que dava lições diárias das oito às dez horas da manhã e das três às cinco da tarde, à exceção das quintas-feiras, que eram dias feriados; e um professor de cantochão, que lecionava duas vezes por semana somente, nas tardes das quartas-feiras e sábados.
Criou-se também no seminário uma aula de música, que em pouco tempo desapareceu, deixando os seminaristas reduzidos ao monótono cantochão.
Já se vê que, em matéria de administração, nada podia haver mais simples, e em matéria de instrução nada podia haver mais pobre e limitado.
Não poderia merecer uma queixa razoável este simplicíssimo sistema administrativo. Não se sentia necessidade de uma administração complicada, nem de um grande pessoal dela incumbido.
Não me refiro ao que se passa no imperial colégio de Pedro II, que em seu governo interno está felizmente livre de notáveis complicações. Se, porém, quisesse falar de outras instituições e de diversos ramos da administração pública, provaria sem a menor dificuldade que, quanto maior é a nau, maior é a tormenta, que, quanto menos simples é o mecanismo do serviço e a teia administrativa, e mais numeroso o pessoal envolvido neles, tanto mais sensivel é a atrapalhação e tanto mais larga a sangria que recebe o tesouro público, sem que o Estado colha um proveito que realmente corresponda à elevação da despesa.
É verdade que as atrapalhações administrativas devidas ao pessoal numeroso empregado no serviço, que se subdivide e se sujeita a trinta mil seções, distinções, e mais isto e mais aquilo, são às vezes indispensáveis para se arranjarem afilhados de excelentíssimos padrinhos, e por conseqüência, não há que dizer, nem que notar. Pague o tesouro as custas e faça-se em quinze dias o que se podia acabar em dois ou três.
Direi oportunamente quais as modificações por que teve de passar a administração do seminário dos orfãos de S. Joaquim.
Quanto à instrução, que era impossível que mais resumida fosse, ainda assim era um apreciável benefício naquele tempo.
Os meninos que concluíam os seus estudos de latim e cantochão no seminário dos órfãos de S. Joaquim achavam nos seminários de S. José e da Lapa, e em uma ou outra aula, recursos para completar o seu curso de humanidades.
A maior parte dos seminaristas de S. Joaquim destinavam-se ao sacerdócio, e neste seminário gastavam quatro, cinco e às vezes mais anos em aprender o latim, embora somente de latim e de cantochão se ocupassem.
Ficais, sem dúvida, tomados de espanto, depois de receber esta informação.
Comparais os estudantes de outrora com os estudantes de hoje e vos sentis abismados, considerando a fácil compreensão da mocidade do nosso tempo.
Façamos justiça aos nossos maiores.
(continua...)
MACEDO, Joaquim Manuel de. Um passeio pela cidade do Rio de Janeiro. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=19326 . Acesso em: 31 jan. 2026.