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#Romances#Literatura Brasileira

O Sertanejo

Por José de Alencar (1875)

A capela estava aberta; e pelo vão da porta via-se à luz mortiça de uma candeia padre Teles que alí andava dispondo os paramentos e cuidando de outros arranjos para a próxima cerimônia, no que era ajudado por um rapazinho, filho do Abreu, e que lhe servia de sacristão. 

Arnaldo, que observava aqueles movimentos com uma ânsia cruel, decidiu-se afinal; e atravessando o terreiro, aproximou-se da rede do Leandro Barbalho. 

— Tenho um particular com o senhor, disse-lhe o sertanejo. 

— Pode falar, Arnaldo. 

— Há de ser em lugar onde ninguém possa ouvir-nos. 

— Onde quiser. 

O sobrinho do capitão-mór seguiu o sertanejo até a extremidade do terreiro, onde já começavam as encostas da serra. Passava alí o muro do quintal, que vinha do canto da casa e galgava pelos alcantís. Por baixo ficava uma quebrada onde passava um córrego. 

Arnaldo escolhera de propósito aquele sítio escuro, onde dois homens podiam bater-se a gôsto, sem temer vistas indiscretas. O que sucumbisse rolaria pelo barranco; e não deixaria vestígios que denunciassem a luta. 

O sertanejo não demorou a explicação. 

— O capitão-mór não tem fôrça para resistir a um assalto; só há um meio de salvá-lo.

— Qual é? perguntou Barbalho. 

— Ficar D. Flor solteira. 

Arnaldo era sincero. Nauqele instante de angústia que passara, êle tinha jurado não salvar a Oiticica e seus moradores, senão por aquele preço. 

— Êsse meio, Arnaldo, meu tio não o afeita. 

— O sr. capitão-mór tem seu orgulho; mas o senhor é que não deve consentir em um casamento que será a destruição de toda a família. 

— Não tenho que ver nisso, respondeu o mancebo placidamente. 

— Assim não lhe importa a desgraça de seus parentes? 

— Meu tio Campelo ordenou-me e eu obedeço. Se êle me dissesse «Barbalho, vai agora mesmo àquela canalha do Fragoso, e mete-lhe o rêlho», eu iria direito ao cabra, e a primeira lambada ninguém lhe a tirava do pêlo. O que sucedia era coserem-se alí às facadas; mas o homem nasceu para morrer. Ora, meu tio quer que me case com Flor; é o mesmo, devo fazer-lhe a vontade. 

Arnaldo olhou admirado e comovido para o homem que lhe falava com aquela simplicidade heróica. 

— Pelo meu gôsto ficaria solteiro. Não tenho jeito para aturar mulheres; demais não é nada agradável andar um homem com a morte atrás de si, porque êsse Fragoso, quando mesmo escapássemos desta, não descansaria enquanto não me despachasse. Mas devo desafrontar as barbas de meu tio Campelo, e se fosse preciso, eu me casaria até com o diabo em pessoa. 

Como o sertanejo não respondesse ainda, o mancebo concluiu: 

— Portanto, amigo Arnaldo, se não há outro meio de salvar-nos, vamos dormir, que êste não serve. 

Quando o sobrinho do capitão-mór afastava-se, Arnaldo, preso de uma comoção profunda, murmurou: 

— Eu não posso matar êste home. Mas Flor?… 

O sertanejo saltou o barranco; e rodeando o tombador até à levada por onde passara no princípio da noite, de novo atravessou o cêrco, mas desta vez para dirigir-se à caverna de Jó. 

O velho dormia; despertando ao rumor dos passos de Arnaldo, viu ao tênue vislumbre que entrava pelas fendas o vulto do mancebo. 

— Arnaldo! 

— Preciso de ti, Jó. 

— E por quem ainda ando eu, alma penada, por êste mundo, filho? 

Arnaldo contou ao velho o que sucedera aquela noite na Oiticica. 

— Anhamum chegou. 

— Ouví os seus passos. 

— Êle possue um veneno que mata, e outro que faz dormir apenas. 

— Conheço. 

— Tu lhe pedirás uma seta ervada que faça dormir um homem. 

— E um arco. 

— Sabes atirar com êle? 

— Outrora eu flechava as andorinhas no ar. 

— Posso contar contigo? 

— Conta com Deus, filho, se êle quiser abençoar-te. 

— Não te demores. 

— O teu pé não tem a asa de teu desejo, como a terá o meu que é velho e cansado. 

Arnaldo tornou à casa. Começava a empalidecer o horizonte. Na habitação e em tôrno dela reinava o mesmo silêncio. No acampamento do Fragoso, os bandeiristas, fatigados talvez da vigília noturna, entregaram-se ao repouso da madrugada. 

Apareceu no patamar o capitão-mór Campelo que desceu ao terreiro, passou revista à sua gente, visitou os postos que se tinham estabelecido em vários pontos que se tinham estabelecido em vários pontos mais próprios para a resistência e mandou fazer nova distribuição dos cartuchos fabricados naquela noite. 

(continua...)

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