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#Romances#Literatura Brasileira

Os Dois Amores

Por Joaquim Manuel de Macedo (1848)

– É que este canto me está chamando. A “Bela Órfã” tem que me confiar.

– Pois vai, adeus!

– Não, espera; pode ser que convenha que saibas o que ela tem para me dizer.

João ficou outra vez só no quarto de Rodrigues.

Uma hora depois voltou o velho guarda-portão.

– Que novidades há? perguntou João.

– O caso vai-se complicando.

– Então, que temos?

– A tal mulherzinha de mantilha obteve do nosso pequeno uma carta para Celina.

– Bravo! provavelmente o rapaz desmanchou-se todo em juramentos de amor.

– Ao contrário, declara a nossa “Bela Órfã” que a não ama, e que não quer iludi-la por mais tempo.

– E esta!... que dizes a isto?

– Fiquei com a cara à banda, João!

– Que disseste à pobre menina?

– Que desconfiasse e que esperasse.

– Realmente foi boa resposta.

– Agora vamos sair, João.

– Para onde?

—Tu para casa de Jacó, e eu para o “Purgatório-trigueiro”.

– Vamos.

Os dois velhos separaram-se à porta do alpendre. João entrou na casa de Jacó, e Rodrigues foi conversar com a velha Irias.

CAPÍTULO XL

O “CORAÇÃO” DE JACÓ

ESTAVA correndo a segunda noite depois daquele dia em que João tinha sido lançado fora da casa de Salustiano.

Eram cerca de dez horas.

Na acanhada saleta de jantar da casinha que ficava fronteira ao “Céu cor-derosa”, estavam três personagens ceando alegremente, sentadas ao redor de uma pequena mesa: eram Jacó, Helena e João.

O antigo agente da casa de Salustiano tinha calculado bem com o gênio interesseiro do ex-escrivão; logo que se separou de Rodrigues apresentou-se na casa de Jacó com a bolsa na mão e foi imediatamente recebido e instalado no melhor quarto da casa.

Logo na primeira noite, João ofereceu a seus hóspedes uma excelente ceia. Jacó era amigo de bom vinho, e Helena, ou por condescendência, ou por que quer que fosse, gostava de tudo de que seu marido gostava. Portanto comeu-se e bebeu-se até alta noite.

Na que se estava seguindo, repetiu-se a mesma cena.

No entretanto conversavam.

– Mas, como ia fazendo notar, disse João, parece que o destino foi quem decidiu que nos ajuntássemos; eu fui um dos que cooperaram para sua desgraça, e portanto era justo que viesse ajudá-lo a sofrê-la.

– Não nos lembremos disso, disse Helena.

– Sim, afoguemos os pesares com vinho.

– Vá feito! exclamou Jacó; à saúde da boa amizade.

E apenas esvaziados os copos, João os encheu de novo, porém com vinho diferente.

– Esta mistura de vinhos é que ontem me fez mal, observou Helena.

– Ora, saúde... um dia não é todos os dias...

– Apoiado! bradou Jacó.

– Comamos um pouco deste bolo inglês para fazer lastro.

– Vamos a ele, que está excelente!

– Eu já pedi a uma comadre minha a receita dos bolos ingleses; mas a maldita egoísta deu-me uma como a cara dela.

– Perdemos uma dúzia de ovos, meu caro João.

– Deixe estar, sra. Helena, que eu lhe hei de trazer a verdadeira receita dos bolos ingleses.

– Oh! Sr. João, não faz idéia do gosto que me dará.

– Sr. Jacó, lá vai a saúde da sua boa senhora!...

– À razão da mesma!

Jacó e Helena, pouco habituados a beber vinhos de diversas qualidades, começavam a demonstrar uma alegria e vivacidade muito significativa.

– Que vinho delicioso! disse o escrivão.

– Tem vinte e cinco anos de sepultado.

– Ah!... eu logo vi...

– Mais um copo.

Os dois não se fizeram rogar.

– A propósito, disse João, ontem o sr. Jacó começou a contar-me uma história que infelizmente não pôde concluir.

– Qual?

– A história de uma grande trovoada doméstica. Uma briga entre marido e mulher, a conseqüente separação dos sujeitinhos, e depois a sua recente conciliação... que diabo! eu fiquei espantado de o ouvir contar as coisas como se as tivesse testemunhado, e ainda mais me espantei quando disse que tinha documentos disso no “coração”.

– Quando?... ah!...

Helena soltou também a sua risada.

– Ele não entende o que é o meu “coração”!...

– É verdade... confesso que não posso adivinhar semelhante charada.

– É segredo de família, e portanto...

– Basta... já não quero saber. Vá um copo de vinho aos segredos de família.

– Vá!

João, que desde a noite anterior concebia as melhores esperanças de realizar o plano que trouxera em mente quando viera morar em casa de Jacó, deixou passar cerca de um quarto de hora, durante o qual fez com que o ex-escrivão e sua mulher esvaziassem ainda mais dois cálices de vinho, e depois disse:

– Mas, tornando, como lá se diz, à vaca fria, devo notar que não são muito concordes em um ponto da tal história.

– Em qual?

(continua...)

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