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#Romances#Literatura Brasileira

O Moço Loiro

Por Joaquim Manuel de Macedo (1845)

Semelhantes idéias, pungidoras certamente, tinham torturado a Félix durante duas noites; o segundo dia correra tão cruel para ele como o primeiro, e ao chegar o fim dessa tarde, em que Lucrécia recebera o sim por que suspirava, o guarda-livros de Hugo de Mendonça despediu-se dos caixeiros, e o contra, antigo costume, subiu antes da noite para seu quarto.

Apenas entrado fechou-se por dentro, e estirou-se sobre o leito, onde passou meia hora arquejando ansiado; depois ele ergueu-se de repente, correu à sua carteira, tirou dela a carta que Otávio há três dias lhe lançara por debaixo da porta, e, apertando-a na mão, exclamou como em delírio:

— É a minha salvaguarda!... somos dois infames que nos daremos o braço mutuamente! o mundo cuspirá no rosto de ambos; não o fará somente no meu!

Nesse momento bateram na porta do quarto; Félix guardou rapidamente a carta no seio, e com voz alterada perguntou:

— Quem está aí?...

E conheceu a voz de um servente que lhe respondeu:

— Um homem já velho e doente quer falar-lhe; e diz que tem importante negócio a tratar, e recomenda que deve fazê-lo neste mesmo quarto, em segredo.

Félix estremeceu todo inteiro.

— E que homem é esse?...

— Ninguém o conhece lá embaixo.

— Donde, e de quem vem?...

— Não o disse.

— Como se chama?...

— Respondeu que não tem nome.

— Pois que se vá embora: não quero vê-lo.

— Já o despedimos dez vezes.

— E então?...

— Diz que quer falar-lhe por força, e em segredo; por que Vossa Mercê não desejará que ele fale muito alto.

— Pode fazê-lo entrar.

E pálido e temeroso ficou o guarda-livros com a cabeça fora da porta e o ouvido atento: ao ruído das pisadas do servente, que se retirava, sucedeu o ruído das do homem que vinha. Félix o viu aproximar-se vagarosamente de seu quarto e entrar sem dizer palavra.

Era um homem de estatura ordinária, magro, de cabelos que começavam a embranquecer, e que por longos cobriam-lhe as orelhas e uma parte da fronte e das faces: trazia dois parches, um sobre o olho esquerdo e outro que lhe escondia completamente o nariz; vinha com calças e coletes de pano preto já usado e vestia uma longa sobrecasaca verde-escura, que lhe tocava a curva das pernas; tendo entrado no quarto, tomou uma cadeira, e sentou-se defronte de Félix com a maior sem-cerimônia do mundo.

— O senhor queria falar-me... disse Félix.

— Sim... respondeu com voz áspera o homem.

Félix o encarou, e viu fito, pregado em seu rosto o olho direito do desconhecido; e sentiu que esse olhar era penetrante como um dardo, ardente como o raio, terrível como o do tigre.

O guarda-livros teve de abaixar a cabeça, e só então pôde dizer um pouco agitado:

— Pois eu estou pronto para ouvi-lo.

— Convém antes, disse o homem, que aquela porta seja fechada...

E, como para poupar a Félix uma resposta ou algumas passadas, ele mesmo ergueu-se e fechou a porta do quarto.

— Bem, disse Félix, que involuntariamente tremia, e agora?...

— Agora, tornou o homem, escute-me.

— Escute-me?... o senhor fala e pratica de um modo, que...

A personagem desconhecida interrompeu o moço, e começou a falar em voz baixa, mas terrível.

— Eu sei uma história, Sr. Félix, que Vossa Mercê vai ouvir, e há de corar, ouvindo-a, provavelmente, porque o seu melindre e a sua virtude se envergonharão do infame papel que representou o herói dela.

— Mas eu penso que o senhor me não veio incomodar para contar-me histórias...

— Ouça sempre. Em certa cidade... (não importa onde) havia um negociante honesto e honrado, cujos negócios não estavam no melhor pé possível. Obrigado por fatais circunstâncias a retirar-se por meses para o campo, deixou ele administrando sua casa um mancebo, que era o seu guarda-livros...

— Se o senhor quer falar de mim...

— Quando o negociante voltou, apareceu a seu lado uma filha sua, jovem e bela, que até então estivera oculta pelo véu dos cuidados de sua família, como uma violeta entre suas folhas; essa moça foi amada por grande número de mancebos, e no número desses houve um a quem eu darei o nome de Otávio, que a pediu em casamento, e foi repelido por ela.

— Mas... senhor...

— Sem generosidade e sem nobreza, Otávio quis tentar obtê-la à força. Para isso achou um meio: o moço, que servira de administrador da casa do negociante, tinha um segredo fatal, que o podia perder, e que era por ele sabido. Otávio abusou desse segredo, e foi vendê-lo ao antigo administrador a preço de mais de quarenta contos de réis em letras passadas contra a casa do negociante. O antigo administrador cedeu!... vendeu seu patrão.

— É falso! balbuciou Félix, caindo aterrado sobre o leito; é falso! é falso!...

(continua...)

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