Por Lima Barreto (1911)
Escusado é dizer que ele nunca pagou e, certa manhã, resolvido a pregarlhe uma peça e obter sapatos, fui até lá.
O pequeno criado, esses pequenos criados maltrapilhos de advogados, varria o escritório quando eu entrava . Perguntei-lhe?
— O Doutor não está?
— Não senhor. Só chega ao meio dia.
O pequeno me conhecia e eu então lhe pedi:
— Você deixa-me experimentar aqui umas botinas?
Estou com as meias rotas e não me convém ir a uma loja. Posso?
— Pois não.
— Bem — disse-lhe eu — você vai à casa tal e diz que mande um par de botinas, bons, número tanto.
Dei-lhe o meu último níquel e o pequeno lá foi. Não tardou que viesse um empregado com os sapatos. Experimentei e disse ao caixeiro da loja:
— Estão bons; mas o pé direito aperta-me um pouco. Leva-o e põe-no na forma uma meia hora.
Assim fez e eu, logo a seguir, disse ao pequeno do advogado:
— É bom a gente sempre experimentar. Você vai na loja número tal e pede que mande um par de botinas.
O criado do advogado foi e eu tive o cuidado de esconder o pé que já tinha. Quando chegou o caixeiro da outra loja, experimentei e depois lhe disse:
— Estão muito bons, mas o pé esquerdo aperta-me um pouco. É bom por na forma.
O caixeiro seguiu a minha recomendação, deixando-me o pé direito e eu me vi de posse de um magnífico par de botinas.
Aproveitei a ida do pequeno ao interior do prédio e saí a todo vapor, antes que me surpreendessem naquele casamento de pés de botina de uma e outra casa.
Não sei o que se seguiu, mas o certo é que ninguém me incomodou, tanto mais que, por precaução, deixei-me ficar uns dias em casa, roendo uns restos de pão duríssimo, que ficara abandonado em cima da mesa em que fazia café.
Foram esses os piores dias da minha vida, não só pela fome que passava, mas também por sofrer as maiores angústias. Não tinha mais jóias, restava-me alguma roupa de pano e a primeira coisa que fiz, ao sair, foi vender uma parte delas no primeiro “belchior” que encontrei. Pude então comer e, satisfeita a fome, foram-se de mim todos os tristes pensamentos que me assediavam.
Essa venda de alguns ternos de roupa que me tinham ficado da boa época de Diretor da Pecuária Nacional deu-me apenas alguns mil-réis com que passar uns dias, mas bem cedo vi-me na mais completa penúria e tive que engendrar um plano para obter dinheiro, a menos que não quisesse vender a única roupa que tinha.
No quarto em que morava, cujo aluguel fora pago adiantado, durante um ano, havia um braço de gás, com o respectivo bico.
Agarrei-o. limpei-o convenientemente e saí decidido a fazer dinheiro com ele.
Tomei um trem de subúrbios e saltei, ao acaso, em uma estação. A primeira coisa que fiz, foi procurar uma vendola e nestes termos dirigi-me ao dono:
— Senhorre não quer compra um bico de gaz aperfeiçoado que faz economia?
Sabem que falava bem português, mas iludia melhor falando dessa forma. O dono da venda, do alto do seu protuberante ventre, disse-me:
— Que diabo de coisa é esta, ó homem?
Repeti-lhe eu:
— É uma bica... — O quê?
Fingi que não lhe entendia a interrogação maliciosa e respondi ingenuamente:
— É uma bica de gaz que luz melhor e economia...
O taverneiro pegou-me na mercadoria e a esteve examinando atentamente:
— Que diabo! — disse-me ele, afinal. — Não lhe vejo nada de novo.
— Senhorre, fiz eu, a questão não está na coisa nova... — O quê — acudiu ele, rindo às gargalhadas.
Eu não me dei por achado e continuei muito humildemente:
(continua...)
BARRETO, Lima. Numa e a ninfa. Brasília, DF: Ministério da Educação, Domínio Público. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16822 . Acesso em: 29 abr. 2026.