Por Aluísio Azevedo (1895)
- Hein?!
- Não saio, porque não quero!
E, pondo o chapéu na cabeça:
- Já não se trata aqui de pedir amor em troca de amor; agora trato apenas de exigir o que me compete de direito! Quero para aqui o que me devem!
- Miserável!
- Oh! pois não! a senhora entende que me deve humilhar a seu gosto e eu devo ficar de cabeça baixa! Engana-se! Por bem sou capaz de todos os sacrifícios; por mal sou capaz de todas as crueldades. Já não é a recusa do seu amor o que me revolta; farte-se com ele quem quiser; mas o seu atrevimento, a sua insolência, o seu orgulho mal entendido! Branca, lívida e trêmula, mas sem dar uma palavra, encaminhou-se para a mesa onde estava o tímpano, com a intenção de chamar um criado.
- É inútil! observou Aguiar, cortando-lhe o passo; é inútil fazer vir alguém, porque eu não sairei. Já não é com a senhora que tenho de me entender e sim com o seu marido!
E, sacando do bolso algumas letras:
- Exijo o pagamento destas letras ou elas serão protestadas!
Nisto, porém, afastou-se o reposteiro do quarto, onde estava escondido o Coruja, e Aguiar viu com espanto surgir o vulto maltrapilho do professor e encaminhar-se tranqüilamente para ele com um terrível sorriso nos lábios.
A sua primeira menção foi de sair, mas o outro o deteve com um gesto cheio de delicadeza.
- Espere, disse, o senhor vai imediatamente ser embolsado do que lhe deve o marido desta senhora. Fui encarregado por ele de tratar disto.
O Aguiar mediu-o de alto a baixo com um olhar em que transparecia mais decepção do que altivez. André, sem se alterar. afastou-se e voltou depois com um grosso maço de dinheiro.
- Faça o favor de verificar se está certo, acrescentou.
E, como o outro hesitasse ainda:
- Então, vamos, confira!
E, para o animar, principiou ele próprio a contar o dinheiro, nota por nota.
- Bem! fez, logo que estava a soma conferida; creio que agora já ninguém lhe deve nada nesta casa. Pode retirar-se.
Aguiar, muito pálido e constrangido, tomou o chapéu com a mão a tremer e encaminhouse para a saída, sem ânimo de levantar os olhos sobre nenhum dos dois outros.
Entretanto Branca presenciara isto imóvel e com a vista presa ao Coruja, como se contemplara um Deus.
André foi acompanhar o outro até à porta da rua e disse-lhe, empurrando-o brandamente para fora de casa:
- Agora, muito cuidadinho cem a língua, porque não é só com Teobaldo que terás de te haver! A respeito do que se passou aqui, nem uma palavra! compreendes? Anda. Vai-te embora, desgraçado!
Feito isto, voltou tranqüilamente ao seu sótão, fechou a gaveta da sua secretária, que ele deixara aberta com a precipitação de buscar o dinheiro, e desceu ao gabinete de Teobaldo.
Branca, porém, foi ao encontro dele e, passando-lhe os braços em volta do pescoço, deulhe um beijo em pleno rosto e desatou a soluçar.
Mas a porta do gabinete acabava de abrir-se, e Teobaldo aparecia defronte dos dois com um flamejante olhar de leão cioso.
XVII
Com a chegada de Teobaldo, Branca e o Coruja separaram-se instintivamente, enquanto aquele, tirando da algibeira o seu revólver, precipitou-se sobre o amigo.
A mulher lançou-se entre eles, tentando desviar o tiro, mas a bala partiu e foi cravar-se no calcanhar esquerdo de André, que caiu, amparando-se à parede.
- Fizeste mal... disse a vítima com um gemido.
E Branca, soltando um grito, exclamou para o outro:
- Desgraçado! Acaba de ferir o salvador da sua e da minha honra!
- Expliquem-se!
Branca apresentou-lhe as letras do Aguiar e acrescentou:
- Já que o senhor assim o quer, saberá tudo. Fiz o possível para não lhe falar em semelhante coisa; vejo, porém, que era muito mal empregado o meu escrúpulo.
- Deixemos-nos de palavras e venham os fatos! Quero a explicação do que acaba de se passar aqui e quero saber a razão por que essas letras se acham em seu poder! - Estas letras aquele pobre homem resgatou-as ainda há - Resgatou-as? E por quê?
- Porque assim era preciso, como aliás já o senhor sabia.
- Mas, afinal, porque era necessário resgatá-las?
- Pelo simples motivo de que o seu amigo Aguiar queria se prevalecer dessa dívida para me obrigar a esquecer os meus deveres de mulher casada.
- Será possível? interrogou Teobaldo, vencido agora pelo implacável olhar da esposa e pelo sereno gesto de perdão que transparecia já no rosto do Coruja.
Houve um silêncio.
- Oh! maldito seja eu! exclamou Teobaldo por fim, correndo a erguer nos braços o ferido.- Não és culpado! disse este. Foi um instante de loucura! Não te incomodes comigo! Isto nada vale!
(continua...)
AZEVEDO, Aluísio Azevedo. O coruja. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=7406 . Acesso em: 18 mar. 2026.