Por Aluísio Azevedo (1897)
— Ah! essa sujeita é sua filha?... repisou Gustavo, muito preocupado. E o que quer a senhora que lhe faça agora?
— Que o senhor me escreva uma carta a ela dirigida, e dê as providências para que a carta seja entregue em mão própria...
— Isso hoje será difícil, porque a Vésper tem uma festa no Alcazar; mas vou ver se consigo.
— Está bem, concordou a lavadeira; contudo que o senhor prepare a carta agora mesmo, e não se descuide de entregála quando for possível.
— Pode ficar descansada.
E Gustavo, depois de inteirado do que a velha queria dizer à filha, escreveu a carta, e saiu, prometendo voltar com qualquer resposta.
Eis aí o que deu motivo ao bilhete, que tanto sobressaltou Ambrosina na noite dos seus triunfos.
Entretanto, o rapaz, ao deixar o cubículo de Genoveva, levava no coração um motivo de grande contentamento; era o que acabava de saber com respeito a Estela, o mocinha de olhos bonitos, que tanto o havia impressionado quando a viu pela primeira vez no colégio de irmãs de caridade em Botafogo e logo depois por ocasião do malsinado retrato de Alfredo; e a qual, a partir daí, nunca mais deixara de associarse aos sonhos do poeta como noiva eleita para a futura felicidade de homem público. Ia vêla afinal, falarlhe diretamente, talvez até receber de seus lábios de donzela uma esperança de amor.
Á noite desse mesmo dia foi ao Alcazar, armado com o bilhete que conseguiu fazer ir ter às mãos de
Ambrosina, na manhã seguinte, perfeitamente seguro do que tencionava pôr em prática a respeito de Estela, correu ao seu editor, muniuse com o que aí tinha em dinheiro, tomou um tílburi e seguiu para o colégio das irmãs de caridade. Não lhe foi possível ver a pupila da lavadeira, prometeramlhe, porém, que às cinco da tarde poderia falarlhe em presença da diretora, ou da irmã que estivesse de semana. Saldou a conta de Genoveva e, propondose pagar um mês de pensão adiantado, soube com surpresa que a sua protegida permanecia ultimamente no colégio, não já na qualidade de aluna, mas de simples empregada no serviço doméstico do estabelecimento.
Retirouse triste, e durante o resto desse dia nada mais fez do que esperar o momento da prometida entrevista.
À hora aprazada lá estava ele de novo no colégio, e bem pode o leitor calcular com que ansiedade não lhe saltaria por dentro o coração, quando lhe anunciaram que a desejada menina ia afinal ser conduzida à sua presença.
Estela apareceu cabisbaixa e silenciosa na sua estamenha azulferrete, e com os cabelos escondidos numa desgraciosa coifa de torcal; acompanhavaa de perto a semanária, velha, macilenta, de óculos quase negros, mãos ocultas nas largas mangas do burel, e o rosto resguardado pelas engomadas abas do seu enorme toucado de linho branco. A rapariga parecia tolhida de sobressalto e timidez, mas seus formosos olhos logo se acenderam e animaram ao dar com os de Gustavo, que a contemplavam enamorados; e, com o feminil e agudo instinto, que jamais atraiçoa a mulher defronte do homem que a ama lealmente, toda ela no mesmo instante se encheu de confiança, deixando em sorrisos transbordar do íntimo da alma a consoladora previsão do novo caminho em flor, que naquele supremo momento ia abrirse para a sua casta e obscura mocidade.
A semanária, sem levantar a cabeça, nem desencovar as mãos, afastouse discretamente para um canto da sala, entrincheirada nos seus terríveis óculos, cujos vidros redondos e abaulados, lhe davam à fisionomia, assim a certa distância, um perturbador aspecto de ave agoureira.
Gustavo, ao contrário do que sucedia com a moça, e apesar da íntima segurança das suas intenções, achavase cada vez mais perplexo e embaraçado. Foi com uma voz apenas perceptível que ele lhe falou da necessidade de cuidar seriamente do futuro dela, à vista do precário estado em que se achava Genoveva.
Estela, com o rosto afogado de comoção, ouviao sem ânimo de arriscar palavra. E o moço não se fartava de vêla, achandoa agora sem dúvida menos bonita, porém muito mais fascinadora e amável. Naqueles travessos olhos, que os dele enfeitiçaram desde que se viram pela primeira vez, lágrimas já de mulher haviam deixado tênue sombra dessas ocultas mágoas, donde tira a natureza as melhores notas dos seus hinos de amor.
— A senhora não poderá continuar na falsa posição em que se acha... balbuciou ele. E preciso ocupar na sociedade o lugar que lhe compete...
A semanária tossiu lá do seu canto, e Estela, abaixando as pálpebras, murmurou:
— Será muito difícil... Não passo de uma pobre órfã, quase totalmente desamparada...
— E por que não se casa?... arriscou o rapaz, abaixando ainda mais a voz.
A rapariga estremeceu, sem responder, mas em compensação a tosse da velha aumentou, e o agoureiro espectro começou a aproximarse dos dois namorados sinistro e lento.
Gustavo acrescentou, chegando a boca ao ouvido da moça:
(continua...)
AZEVEDO, Aluísio. A Condessa Vésper. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=2124 . Acesso em: 8 mar. 2026.